Um biomaterial injetável desenvolvido por pesquisadores da Universidade Duke conseguiu transformar a região lesionada pelo AVC em um ambiente mais favorável à recuperação. Em experimentos com camundongos, a estrutura estimulou a chegada de células do sistema imunológico, favoreceu a formação de novos vasos sanguíneos e esteve associada a melhorias nos movimentos dos animais.
A estratégia chama atenção porque tenta enfrentar um dos principais obstáculos depois de um AVC isquêmico grave: quando uma parte do tecido cerebral morre, simplesmente restabelecer o fluxo sanguíneo não é suficiente para reconstruí-la.
Uma cavidade que precisava de novas condições
O AVC isquêmico acontece quando um coágulo impede que o sangue chegue adequadamente a determinada região do cérebro. Tratamentos de emergência podem remover ou dissolver esse bloqueio e preservar células que ainda estão viáveis.
Entretanto, quando o tecido já foi destruído, fica uma cavidade no local da lesão. A reabilitação pode ajudar o cérebro a reorganizar funções por meio das regiões preservadas, mas não substitui diretamente o tecido perdido.
Foi nesse espaço que os pesquisadores concentraram a nova estratégia.
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Entrar no Canal do WhatsAppHidrogel cria suporte para a recuperação do cérebro
O tratamento utiliza uma estrutura chamada MAPS, formada por micropartículas de hidrogel que se organizam em um material poroso.
A arquitetura funciona como uma espécie de andaime microscópico, criando espaços onde diferentes células podem penetrar e interagir. Porém, o objetivo não era apenas preencher a cavidade.
Os pesquisadores também incorporaram ao biomaterial vesículas extracelulares, pequenas estruturas liberadas pelas células e capazes de transportar moléculas que influenciam o comportamento de outras células.
Nesse caso, as vesículas foram obtidas de astrócitos, células abundantes no cérebro que participam da resposta às lesões.
Sistema imunológico entra em cena
Um dos aspectos mais interessantes do experimento foi a utilização de sinais capazes de atrair células imunológicas para a área afetada.
A combinação envolvendo IL-4 e C1q favoreceu a presença de células como macrófagos e neutrófilos na região tratada. Embora os neutrófilos sejam frequentemente associados à inflamação inicial após um AVC, os resultados indicam que seu papel pode mudar conforme o momento e o ambiente da lesão.
Quando os pesquisadores reduziram a presença dessas células, houve uma queda importante na formação de novos vasos sanguíneos e na remodelação do tecido.
Isso sugere que determinadas células imunológicas podem participar ativamente de processos de reparação quando recebem os sinais adequados.
Novos vasos acompanharam melhora dos movimentos
Após o tratamento, os pesquisadores observaram maior formação de vasos sanguíneos dentro da cavidade da lesão. Também foram identificadas mais fibras axonais na região e ao redor dela.
Os axônios são prolongamentos responsáveis por transmitir sinais entre células nervosas. Portanto, alterações nessa estrutura são relevantes para a recuperação das conexões neurais.
Além das mudanças observadas no tecido, os camundongos tratados apresentaram melhor desempenho motor. Em um teste de caminhada sobre uma grade, os animais apresentaram, após oito semanas, desempenho estatisticamente semelhante ao grupo saudável.
O biomaterial parece ser parte essencial
Os pesquisadores também testaram as vesículas extracelulares sem o suporte de hidrogel. Nesse cenário, os resultados não foram equivalentes.
A diferença indica que o andaime não funciona apenas como um veículo de entrega. Sua estrutura porosa parece ajudar a manter os sinais terapêuticos concentrados no local da lesão, criando condições para que as células recrutadas interajam com o material.
O estudo foi publicado na revista científica Cell Biomaterials, com Shangjing Xin como primeiro autor, em 2026.
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Ainda não é um tratamento para pacientes
Apesar dos resultados promissores, é importante destacar que a técnica permanece em fase pré-clínica. Até o momento, os experimentos foram realizados em modelos animais e envolveram a aplicação direta do biomaterial no cérebro lesionado.
Antes de qualquer possibilidade de uso em pessoas, serão necessários estudos adicionais para avaliar segurança, eficácia, resposta imunológica e efeitos a longo prazo.
A equipe também pretende investigar vesículas produzidas por astrócitos derivados de células-tronco pluripotentes induzidas humanas. Essa abordagem poderá facilitar o desenvolvimento de uma fonte mais adequada para futuras aplicações.
Por enquanto, o principal resultado está na demonstração de que a recuperação após um AVC pode ser investigada por uma abordagem diferente: em vez de tentar simplesmente substituir o tecido perdido, criar um ambiente capaz de recrutar as próprias células do organismo e estimular a reconstrução de vasos e conexões neurais.
