Uma descoberta feita a partir de dados do Observatório de Raios X Chandra, da NASA, pode revelar uma população cósmica que permaneceu praticamente escondida dos telescópios. Os objetos apresentam uma combinação incomum: emitem raios X de energia extremamente baixa e, ao mesmo tempo, grandes quantidades de radiação ultravioleta energética.
A equipe identificou 84 dessas fontes em seis galáxias, incluindo a galáxia de Andrômeda (M31) e a galáxia do Cata-vento (M101). O comportamento chamou atenção porque não corresponde ao padrão normalmente observado em fontes de raios X conhecidas.
Mais do que apresentar uma nova classe de objetos, a descoberta pode ajudar os astrônomos a investigar dois problemas importantes da astrofísica.
Um brilho que aparece apenas na faixa mais suave
As chamadas fontes de raios X hipersuaves foram encontradas durante uma análise do arquivo público do Chandra. O método utilizado foi relativamente simples, mas revelou algo que havia escapado de levantamentos anteriores.
Os objetos apareciam nas imagens registradas nas menores energias de raios X, principalmente abaixo de 0,3 keV, mas praticamente desapareciam quando os pesquisadores analisavam energias maiores.
Siga o canal do Fala Ciência no WhatsApp para receber nossos conteúdos em primeira mão!
Entrar no Canal do WhatsAppEsse padrão indica que a maior parte da emissão está concentrada na região de baixa energia do espectro de raios X, próxima da faixa da radiação ultravioleta extrema.
Segundo os modelos analisados pelos pesquisadores, os objetos mais luminosos podem atingir cerca de 10³⁸ erg por segundo apenas na faixa estreita de raios X observada. A luminosidade total pode ser ainda maior, porque grande parte da energia provavelmente está sendo emitida no ultravioleta extremo.
A pista pode estar em sistemas binários
Ainda não existe uma identificação definitiva para a natureza dessas fontes. No entanto, os pesquisadores consideram que elas provavelmente estejam associadas a sistemas binários, nos quais um objeto compacto captura matéria de uma estrela companheira.
Entre os candidatos estão:
- anãs brancas que acumulam matéria;
- estrelas de nêutrons alimentadas por uma companheira;
- buracos negros que atraem material de outra estrela.
Nesse processo, a matéria transferida pode ser aquecida a temperaturas extremamente altas antes de atingir o objeto compacto. O resultado é uma intensa emissão de radiação.
A combinação observada agora, porém, é particularmente incomum. Raios X extremamente suaves acompanhados por forte emissão ultravioleta criam uma assinatura que não havia sido reconhecida como uma classe própria.
Uma possível pista antes de uma supernova
Uma das possibilidades mais interessantes envolve as supernovas do tipo Ia, explosões estelares utilizadas pelos astrônomos para estudar a expansão do Universo.
Alguns modelos indicam que determinados sistemas envolvendo anãs brancas em crescimento podem terminar em uma explosão desse tipo. Encontrar esses sistemas antes da explosão seria extremamente valioso para entender quais condições levam uma anã branca a atingir o estágio de supernova.
As novas fontes podem, portanto, oferecer uma maneira de procurar possíveis progenitores dessas explosões antes que elas aconteçam.
A radiação também pode afetar as próprias galáxias
Existe ainda uma segunda questão. Algumas galáxias apresentam gás altamente ionizado em níveis que nem sempre podem ser explicados apenas pela presença de estrelas quentes e massivas.
A radiação ultravioleta extrema das fontes hipersuaves pode fornecer parte dessa energia. Ao interagir com o gás interestelar, essa radiação consegue retirar elétrons dos átomos e modificar seu estado de ionização.
Isso é importante porque a ionização do gás participa de processos relacionados à formação de estrelas e à evolução das galáxias.
Leia mais:
O Universo ainda esconde grande parte dessas fontes
A própria natureza da radiação ajuda a explicar por que esses objetos permaneceram ocultos. Os raios X de baixa energia são difíceis de detectar, enquanto a radiação ultravioleta extrema é facilmente absorvida pelo hidrogênio e pelo hélio existentes entre as estrelas.
Assim, essas fontes podem ter permanecido fora dos catálogos tradicionais simplesmente porque os telescópios não conseguiam observar sua principal faixa de emissão.
O estudo publicado em 9 de setembro de 2026 na revista Nature Astronomy, liderado por Mustafa Muhibullah, apresenta as fontes hipersuaves como uma nova classe de emissores cósmicos de baixa energia. O trabalho ainda não determina definitivamente a natureza de cada objeto, mas abre uma nova possibilidade para investigar sistemas binários, supernovas do tipo Ia e a ionização do gás nas galáxias.
