Japão prepara missão inédita para trazer amostras de uma lua de Marte 

Fobos pode guardar pistas sobre a origem do Sistema Solar. (Imagem: Getty Images via Canva)

Marte pode não ser o único lugar do planeta vermelho capaz de guardar pistas sobre nosso passado. Suas duas pequenas luas, Fobos e Deimos, podem funcionar como verdadeiros arquivos naturais da história do Sistema Solar. É justamente nesses corpos que o Japão pretende procurar respostas.

A missão Martian Moons eXploration, ou MMX, desenvolvida pela JAXA, foi projetada para estudar as duas luas marcianas e coletar amostras de Fobos, que posteriormente serão transportadas de volta à Terra.

O objetivo vai muito além de conhecer a composição de uma lua. Os cientistas querem descobrir de onde Fobos e Deimos vieram e, principalmente, se esses corpos preservam materiais que ajudaram a construir os planetas rochosos.

Fobos pode ser uma cápsula do tempo cósmica

A origem das luas de Marte ainda não está completamente esclarecida. Duas hipóteses principais disputam espaço.

A primeira propõe que Fobos e Deimos tenham surgido de material lançado ao espaço depois de um grande impacto contra Marte. A segunda sugere que seriam asteroides formados em outra região do Sistema Solar e posteriormente capturados pela gravidade marciana.

A diferença entre essas possibilidades é enorme. Se as luas forem corpos capturados, elas poderiam preservar informações sobre materiais que viajaram pelo Sistema Solar primitivo.

Isso inclui água, compostos orgânicos e outras substâncias voláteis, elementos importantes para compreender como os ambientes potencialmente habitáveis dos planetas rochosos se desenvolveram.

Uma missão de três anos com uma coleta decisiva

Infográfico das etapas da missão MMX da JAXA em Marte. (Imagem: Fala Ciência)

A MMX deverá passar aproximadamente três anos no sistema marciano. Durante esse período, a espaçonave estudará Marte, Fobos e Deimos, enquanto um pequeno rover chamado IDEFIX será utilizado para investigar diretamente a superfície de Fobos.

A missão pretende coletar pelo menos 10 gramas de material da lua marciana.

Depois, uma cápsula será preparada para retornar à Terra, com pouso previsto na Austrália por volta de 2031.

A experiência japonesa com missões de retorno de amostras é especialmente importante. A Hayabusa2 conseguiu trazer para nosso planeta 5,4 gramas de material do asteroide Ryugu em 2020, demonstrando a capacidade do país de realizar operações extremamente complexas a grandes distâncias.

A gravidade quase inexistente torna o pouso um desafio

Chegar a Fobos é apenas parte do problema. Pousar em sua superfície será uma tarefa delicada porque a pequena lua possui uma gravidade extremamente baixa.

Em um ambiente assim, uma espaçonave pode ter dificuldades para permanecer estável após tocar o solo. Por isso, o sistema de pouso da MMX foi desenvolvido especificamente para absorver o impacto e evitar que a sonda tombe.

O rover IDEFIX também terá papel importante. Ao explorar a superfície, poderá fornecer informações complementares às obtidas pelos instrumentos orbitais e ajudar os pesquisadores a escolher áreas interessantes para investigação.

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A MMX não está sozinha na busca por material relacionado a Marte. A China planeja a missão Tianwen-3, destinada a coletar amostras diretamente do planeta e trazê-las à Terra.

Enquanto isso, o rover Perseverance, da NASA, já acumulou amostras na superfície marciana que foram preparadas para uma futura campanha de retorno.

A missão japonesa, entretanto, possui uma vantagem científica particular: em vez de buscar apenas material de Marte, ela pretende investigar uma lua que pode ter preservado substâncias provenientes de diferentes regiões do Sistema Solar.

Leandro C. Sinis é biólogo formado pela UFRJ e divulgador científico. Com experiência em pesquisa acadêmica, é coautor de um estudo sobre neuroproteção publicado no Journal of Biological Chemistry (DOI: 10.1074/jbc.m117.807180). Sua missão no Fala Ciência é traduzir descobertas complexas em conhecimento acessível e seguro para todos. Ver perfil no LinkedIn | Ver Currículo Lattes