Hubble revela galáxia perdida que ajudou a construir a Via Láctea há bilhões de anos 

Galáxia anã LKH colidiu com a jovem Via Láctea há bilhões de anos. (Imagem: Ilustração: NASA, ESA, Joseph Olmsted (STScI))

A Via Láctea nem sempre foi a enorme galáxia espiral que conhecemos hoje. Sua estrutura atual foi construída gradualmente, em um processo que envolveu nascimento de estrelas, crescimento de matéria e colisões com outras galáxias.

Agora, uma investigação conduzida com dados do Telescópio Espacial Hubble levou os astrônomos ainda mais para trás nessa história. Os resultados indicam que uma galáxia anã foi incorporada à Via Láctea há aproximadamente 11,8 bilhões de anos, quando o Universo ainda estava em seus primeiros bilhões de anos.

A descoberta ajuda a preencher uma lacuna importante na reconstrução da origem da nossa galáxia.

Encontro cósmico aconteceu quando a Via Láctea era jovem

A Via Láctea já passou por diversas fusões. Uma das mais conhecidas envolveu a galáxia Gaia-Salsicha-Enceladus, absorvida há aproximadamente 10 bilhões de anos. Outra interação importante, com a galáxia anã de Sagitário, começou há mais de 6 bilhões de anos e ainda deixa marcas na estrutura galáctica.

Entretanto, havia indícios de que algo ainda mais antigo havia acontecido.

A nova análise aponta para uma galáxia anã denominada Kraken-Héracles de Baixa Energia, ou LKH. Ela teria contribuído com uma quantidade estimada de estrelas equivalente a cerca de 500 milhões de vezes a massa do Sol, representando uma parcela considerável da Via Láctea naquela época.

Aglomerados globulares funcionam como fósseis da galáxia

Para reconstruir um acontecimento ocorrido há quase 12 bilhões de anos, os pesquisadores precisaram encontrar vestígios que sobreviveram à transformação da Via Láctea.

É aí que entram os aglomerados globulares, enormes concentrações esféricas de estrelas muito antigas. Como esses conjuntos preservam informações sobre a época e as condições em que suas estrelas se formaram, eles podem funcionar como verdadeiros registros arqueológicos cósmicos.

A equipe analisou 39 aglomerados globulares localizados nos 20 mil anos-luz mais internos da Via Láctea. Os dados do Hubble permitiram estimar suas idades e sua composição química, especialmente a quantidade de elementos mais pesados que o hélio, chamada de metalicidade.

A análise revelou três grupos distintos:

  • aglomerados formados na própria Via Láctea;
  • aglomerados associados à fusão Gaia-Salsicha-Enceladus;
  • uma população ainda mais antiga, relacionada à LKH.

Essa terceira população foi a principal pista para identificar a antiga fusão.

O Hubble voltou quase ao começo da nossa galáxia

O estudo foi publicado em Nature Astronomy em 2026, com Davide Massari como autor principal. O trabalho, intitulado Evidence for a massive accretion event 1.8 billion years before the Gaia-Sausage-Enceladus merger, apresenta evidências de que a incorporação da LKH ocorreu cerca de 1,8 bilhão de anos antes da conhecida fusão Gaia-Salsicha-Enceladus. 

Essa descoberta modifica a compreensão sobre os primeiros capítulos da Via Láctea. As evidências indicam que estrelas formadas fora da nossa galáxia já participavam de sua construção quando ela ainda estava em uma fase extremamente jovem.

Além disso, o resultado mostra por que estudar objetos antigos é tão importante. Mesmo depois de bilhões de anos, os aglomerados globulares podem preservar pistas capazes de revelar galáxias que deixaram de existir como estruturas independentes.

Os pesquisadores pretendem ampliar essa investigação utilizando novas observações do Hubble para estudar outros aglomerados pouco conhecidos. Assim, cada grupo de estrelas antigas poderá revelar mais uma parte da complexa história de como a Via Láctea se tornou a galáxia que hoje abriga o Sistema Solar.

Rafaela Lucena é farmacêutica (CRF-RJ:13912) graduada pela UNIG. Une sua formação em saúde à paixão pela divulgação científica para traduzir estudos clínicos e farmacológicos para o cotidiano. Como responsável técnica pelo Fala Ciência, dedica-se a combater a desinformação com rigor técnico e embasamento científico de qualidade. Ver perfil no LinkedIn