Leite para gatos: o mito clássico que pode prejudicar a saúde intestinal do seu pet 

Gatos e leite: o hábito clássico pode não ser ideal para todos. (Imagem: Getty Images via Canva)

A imagem de um gato bebendo leite em um pires é tão tradicional que acabou parecendo uma regra de alimentação. Mas a realidade é bem diferente. Para alguns felinos, o leite de vaca pode provocar alterações digestivas, enquanto para outros uma determinada quantidade pode ser tolerada sem sinais evidentes.

O ponto principal, portanto, não é tratar o leite como um alimento venenoso para gatos. A questão é entender que gatos adultos não precisam de leite e que a capacidade de lidar com a lactose varia conforme o animal e a quantidade ingerida.

Depois do desmame, o cenário muda

A lactose é o açúcar naturalmente encontrado no leite. Para aproveitá-la, o organismo precisa quebrá-la durante a digestão. Nos filhotes que mamam, esse processo é importante porque o leite materno faz parte da alimentação.

Depois do desmame, porém, a necessidade de consumir leite desaparece. Consequentemente, a digestão de grandes quantidades de lactose pode não ocorrer da mesma maneira.

Quando a lactose não é adequadamente aproveitada, ela pode chegar ao intestino grosso e ser utilizada pelas bactérias presentes ali. Dependendo da quantidade e da sensibilidade individual, isso pode favorecer gases, alteração das fezes, distensão abdominal e diarreia.

Porém, existe uma nuance importante: isso não acontece obrigatoriamente com todos os gatos.

Um experimento com gatos adultos trouxe uma surpresa

A tolerância à lactose varia entre os gatos e a quantidade consumida. (Imagem: Getty Images via Canva)

Um estudo publicado em julho de 2003 no Journal of Animal Physiology and Animal Nutrition, liderado por A. C. Beynen, avaliou diretamente a ingestão de lactose em gatos adultos.

Os pesquisadores realizaram um estudo cruzado com oito gatos, oferecendo dietas secas com ou sem 10% de lactose. A quantidade de lactose consumida pelos animais correspondia a aproximadamente 1,2 g por kg de peso corporal.

O resultado foi diferente do que uma interpretação simplista poderia sugerir: a lactose não alterou a consistência das fezes dos gatos avaliados, nem modificou a absorção dos minerais analisados.

Isso não significa que o leite esteja liberado para qualquer gato. O estudo avaliou uma quantidade específica de lactose, em apenas oito animais, e não diferentes tipos de leite oferecidos como bebida. Portanto, seus resultados não permitem concluir que todos os gatos toleram leite de vaca.

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O problema está no exagero e na tolerância individual

A melhor maneira de interpretar as evidências é abandonar a ideia de que todo gato necessariamente terá diarreia ao beber leite.

Alguns animais podem consumir pequenas quantidades sem apresentar sintomas aparentes. Outros, entretanto, podem desenvolver desconforto gastrointestinal mesmo após uma quantidade relativamente pequena.

Além disso, leite de vaca não foi formulado para atender às necessidades nutricionais de um gato adulto. Ele pode adicionar calorias, gordura e lactose à dieta sem oferecer uma vantagem nutricional necessária.

Por isso, a opção mais segura para hidratação continua sendo água fresca e limpa.

Para filhotes, leite de vaca é outra história

Filhotes precisam de alimentação adequada durante a fase de crescimento, mas isso não significa oferecer leite de vaca.

Quando um gatinho ainda não pode ser alimentado pela mãe, o ideal é utilizar fórmulas específicas para filhotes, seguindo orientação veterinária. A composição do leite de outras espécies não reproduz necessariamente as necessidades nutricionais de um gato em desenvolvimento.

Assim, aquele tradicional pires de leite não precisa fazer parte da rotina do pet. Se o gato apresentar vômitos, diarreia ou desconforto após consumir leite, o alimento deve ser interrompido e o veterinário consultado, especialmente se os sintomas forem persistentes.

Rafaela Lucena é farmacêutica (CRF-RJ:13912) graduada pela UNIG. Une sua formação em saúde à paixão pela divulgação científica para traduzir estudos clínicos e farmacológicos para o cotidiano. Como responsável técnica pelo Fala Ciência, dedica-se a combater a desinformação com rigor técnico e embasamento científico de qualidade. Ver perfil no LinkedIn