Uma costela quebrada de Scotty, considerado o maior esqueleto de Tyrannosaurus rex já descoberto, acaba de ganhar uma espécie de exame médico pré-histórico. Com o auxílio de imagens de nêutrons, cientistas conseguiram observar o interior do osso fossilizado e investigar estruturas associadas à cicatrização de uma fratura ocorrida há cerca de 66 milhões de anos.
O resultado oferece uma oportunidade rara de estudar não apenas a anatomia de um dinossauro extinto, mas também pistas sobre como seu organismo reagia a uma lesão.
Uma fratura congelada no tempo
A costela de Scotty apresenta sinais de uma fratura que começou a cicatrizar, mas não chegou a se recuperar completamente. Esse detalhe é especialmente importante porque a região lesionada apresenta uma extensa rede de estruturas semelhantes a vasos sanguíneos.
O primeiro estudo detalhado dessas estruturas foi publicado na revista Scientific Reports em 4 de julho de 2025, tendo Jerit L. Mitchell como primeiro autor. Os pesquisadores utilizaram microtomografia com radiação síncrotron, análise química e microscopia para reconstruir a arquitetura interna da costela.
A análise indicou que as estruturas estavam concentradas na região da fratura e apresentavam características compatíveis com angiogênese, processo no qual novos vasos sanguíneos são formados para fornecer nutrientes e outros recursos necessários à reparação do tecido.
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Entrar no Canal do WhatsAppNo entanto, o estudo não encontrou tecido sanguíneo original preservado. As estruturas foram interpretadas como moldes mineralizados de antigos vasos, formados durante o processo de fossilização.
Nêutrons enxergam partes que os raios X deixam escapar
A investigação mais recente acrescentou uma ferramenta diferente ao quebra-cabeça. Em abril de 2026, a equipe levou fósseis ao Oak Ridge National Laboratory, nos Estados Unidos, para utilizar os instrumentos MARS e VENUS.
A vantagem da técnica está na maneira como os nêutrons interagem com a matéria. Eles apresentam sensibilidade especialmente elevada a elementos leves, como o hidrogênio, o que pode ajudar a localizar vestígios associados a tecidos moles.
Enquanto os raios X são excelentes para visualizar estruturas densas, a imagem por nêutrons oferece um contraste complementar. Assim, os pesquisadores conseguem investigar o interior de grandes ossos sem precisar cortá-los ou retirar partes do material preservado.
O instrumento VENUS foi usado para produzir imagens tridimensionais de alta resolução de amostras maiores, incluindo a costela de Scotty. Já o MARS é adequado para revelar detalhes mais delicados em materiais menores, como ossos, escamas fossilizadas e âmbar.
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Um exame médico de 66 milhões de anos
A combinação dessas tecnologias transforma um fóssil aparentemente estático em uma espécie de registro biológico do passado.
A fratura de Scotty permite investigar como um dos maiores predadores do Cretáceo reagia a uma lesão grave. Além disso, a preservação excepcional das estruturas vasculares ajuda os cientistas a entender como processos relacionados à cicatrização óssea podem ter funcionado em dinossauros.
A equipe pretende continuar analisando os dados obtidos com nêutrons, estudar outros fósseis e comparar sinais de cicatrização entre diferentes espécies. Com isso, ossos guardados há décadas em coleções científicas podem ganhar uma nova oportunidade de revelar detalhes sobre a fisiologia, as doenças e os ferimentos de animais que desapareceram há milhões de anos.
