Osso de 150 mil anos revela um detalhe inédito sobre os denisovanos 

Rádio denisovano revela detalhes inéditos da anatomia do antebraço. (Imagem: Huiyun Rao et al via Nature (2026))

Um fragmento de osso encontrado em uma caverna no sudoeste da China está ajudando a revelar detalhes até então desconhecidos sobre os denisovanos, um grupo de humanos arcaicos que habitou diferentes regiões da Ásia. A descoberta é especialmente importante porque se trata do primeiro rádio denisovano identificado até hoje, oferecendo uma rara oportunidade de estudar diretamente a anatomia corporal desses antigos hominídeos.

O material foi encontrado na Caverna Bianfu, na província de Yunnan, junto a outros restos humanos datados de aproximadamente 167 mil a 134 mil anos atrás. A análise identificou cinco fósseis como pertencentes a denisovanos, incluindo dois fragmentos de ossos do crânio, um fragmento do rádio e dois dentes.

Uma busca entre milhares de fragmentos

A descoberta exigiu uma estratégia diferente porque a Caverna Bianfu contém mais de 60 mil fragmentos ósseos. Analisar cada um deles individualmente seria uma tarefa extremamente demorada e cara.

Por isso, os pesquisadores combinaram duas técnicas. Primeiro, fizeram uma triagem morfológica, procurando características compatíveis com restos de hominídeos. Depois, utilizaram o ZooMS, método que identifica espécies por meio de proteínas preservadas no colágeno dos ossos.

De 22 fragmentos inicialmente considerados candidatos, três foram confirmados como restos de hominídeos. Posteriormente, análises proteômicas também identificaram dois dentes como pertencentes ao mesmo grupo.

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Essa abordagem permitiu encontrar fósseis humanos em meio a uma enorme quantidade de restos animais.

Proteínas antigas identificaram os denisovanos

A confirmação da identidade foi obtida por meio da paleoproteômica, área que investiga proteínas preservadas em restos antigos.

Os cinco fósseis apresentaram uma alteração específica na proteína COL1A2, conhecida como R996K, associada aos denisovanos. Além disso, análises filogenéticas colocaram as amostras da Caverna Bianfu junto de outros indivíduos denisovanos conhecidos.

Os resultados são particularmente relevantes porque fósseis desse grupo ainda são relativamente raros. Durante muito tempo, a escassez de restos encontrados no sudoeste da China criou uma espécie de vazio no mapa conhecido da distribuição denisovana.

O braço traz uma pista inesperada

Entre os achados, o fragmento BFD771 chama atenção por pertencer à região proximal do rádio, um dos dois ossos longos do antebraço.

Sua anatomia apresenta uma combinação incomum de características. Algumas dimensões e estruturas lembram os rádios neandertais, enquanto o formato geral e a geometria de uma parte do osso se aproximam mais dos humanos modernos.

Esse padrão misto é importante porque os ossos pós-cranianos, aqueles localizados abaixo do crânio, ainda são pouco conhecidos entre os denisovanos. Consequentemente, o rádio oferece uma nova janela para investigar como era o corpo desses hominídeos e quais características poderiam estar relacionadas ao seu modo de vida.

Além disso, dois dentes analisados apresentaram proteínas associadas ao cromossomo Y, indicando que os indivíduos eram do sexo masculino.

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Uma região importante na história dos denisovanos

Mapa revela onde fósseis Denisovanos foram encontrados na China. (Imagem: Huiyun Rao et al via Nature (2026))

A Caverna Bianfu passa a ser considerada o local com maior quantidade de restos denisovanos conhecido fora da Caverna Denisova, na Sibéria.

A localização também é significativa. O sudoeste da China fica em uma área que pode ter funcionado como corredor entre diferentes regiões da Ásia. Os novos fósseis, portanto, ajudam a ampliar a compreensão sobre a presença desses hominídeos no continente.

O estudo foi publicado na revista Nature, em 9 de setembro de 2026, tendo Huiyun Rao como primeiro autor, com participação de Qiaomei Fu e outros pesquisadores.

A descoberta mostra como técnicas capazes de recuperar informações moleculares de pequenos fragmentos podem transformar o estudo da evolução humana. Um único osso do antebraço, preservado por dezenas de milhares de anos, agora oferece pistas inéditas sobre um dos grupos humanos mais enigmáticos da pré-história.

Leandro C. Sinis é biólogo formado pela UFRJ e divulgador científico. Com experiência em pesquisa acadêmica, é coautor de um estudo sobre neuroproteção publicado no Journal of Biological Chemistry (DOI: 10.1074/jbc.m117.807180). Sua missão no Fala Ciência é traduzir descobertas complexas em conhecimento acessível e seguro para todos. Ver perfil no LinkedIn | Ver Currículo Lattes