Titanossauros colocavam ovos em uma das regiões mais frias do planeta 

Microtomografia e MEV revelam poros na casca do ovo fóssil. (Imagem: Kohei Tanaka via Royal Society Open Science)

A descoberta de mais de 250 fragmentos de casca de ovo na região mais austral da Patagônia está mudando uma ideia importante sobre a reprodução dos titanossauros. Esses gigantes de pescoço comprido, que viveram no fim do Cretáceo, aparentemente conseguiam colocar seus ovos em uma região muito mais fria e distante do equador do que os registros anteriores indicavam.

Gigantes escolheram um lugar inesperado para seus ninhos

Os fósseis foram encontrados na Formação Chorrillo, no extremo sul da Argentina. O material pertence ao final do Cretáceo, quando os dinossauros ainda dominavam os ecossistemas terrestres.

A localização chama atenção porque, naquela época, a área estava aproximadamente entre 55° e 60° de latitude sul. Além disso, as temperaturas médias anuais estimadas ficavam entre 12 °C e 14,5 °C.

Para animais que produziam ovos e dependiam de condições adequadas para o desenvolvimento dos embriões, esse ambiente representava um desafio.

E justamente as próprias cascas podem revelar como os titanossauros lidavam com ele.

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As cascas guardavam uma pista sobre a incubação

Seções da casca revelam sua estrutura microscópica e mineralização. (Imagem: Kohei Tanaka via Royal Society Open Science)

Os pesquisadores analisaram 255 fragmentos de casca utilizando microscopia e microtomografia computadorizada. As características observadas permitiram identificar o material como Fusioolithus, um tipo de ovo fóssil associado a titanossauros.

Um dos aspectos mais importantes foi a elevada quantidade de poros presentes nas cascas.

Essas estruturas são fundamentais para as trocas gasosas do ovo. O oxigênio precisa alcançar o embrião enquanto dióxido de carbono e vapor de água são eliminados. Porém, a configuração encontrada nas cascas é compatível com ovos que permaneciam cobertos pelo material do ninho durante a incubação.

Isso muda bastante a imagem tradicional de um ninho exposto ao sol.

Vegetação em decomposição pode ter funcionado como uma incubadora

Se os ovos ficavam enterrados, como recebiam calor suficiente para o desenvolvimento?

A hipótese mais interessante levantada pelo estudo envolve vegetação em decomposição.

Durante a decomposição de matéria orgânica, microrganismos liberam calor. Em grandes quantidades, esse processo pode produzir temperaturas superiores às do ambiente, de maneira semelhante ao que ocorre em uma pilha de compostagem.

Assim, os titanossauros poderiam ter construído ninhos em forma de montes, utilizando solo e material vegetal ao redor dos ovos. A decomposição da matéria orgânica teria fornecido parte do calor necessário para a incubação.

Além disso, manter os ovos cobertos ajudaria a criar um ambiente mais protegido e úmido.

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Estudo amplia o mapa reprodutivo dos dinossauros

A descoberta foi descrita por Kohei Tanaka, da Universidade de Tsukuba, e publicada em 9 de setembro de 2026 na revista científica Royal Society Open Science

Os resultados indicam que os titanossauros conseguiam se reproduzir em latitudes elevadas do Hemisfério Sul, muito mais ao sul do que os principais registros conhecidos anteriormente.

No entanto, existe uma ressalva importante: nenhum ovo completo ou ninho preservado foi encontrado no local. Portanto, a ideia de que a vegetação em decomposição fornecia o calor da incubação continua sendo uma hipótese baseada principalmente na estrutura das cascas.

Ainda assim, os fósseis mostram que esses gigantes eram capazes de reproduzir-se em ambientes surpreendentemente frios. E isso revela que o sucesso dos maiores dinossauros herbívoros não dependia apenas do tamanho, mas também de estratégias reprodutivas capazes de aproveitar as condições disponíveis no ambiente.

Rafaela Lucena é farmacêutica (CRF-RJ:13912) graduada pela UNIG. Une sua formação em saúde à paixão pela divulgação científica para traduzir estudos clínicos e farmacológicos para o cotidiano. Como responsável técnica pelo Fala Ciência, dedica-se a combater a desinformação com rigor técnico e embasamento científico de qualidade. Ver perfil no LinkedIn