Cloud-9 intriga astrônomos ao revelar uma galáxia quase completamente sem estrelas 

Emissão de rádio revela a localização da misteriosa Nuvem-9. (Imagem: NASA, ESA, VLA, Gagandeep Anand (STScI), Alejandro Benitez-Llambay (Universidade de Milão-Bicocca); Processamento de imagem: Joseph DePasquale (STScI))

Uma estrutura cósmica localizada a cerca de 15 milhões de anos-luz da Terra pode estar escondendo uma característica extremamente rara: ela parece conter uma enorme quantidade de gás, mas praticamente nenhuma estrela. O objeto, chamado Cloud-9, acaba de passar por uma das buscas mais profundas já realizadas para encontrar sinais de luz estelar em sua região.

O resultado chamou atenção porque Cloud-9 pode representar algo previsto pelos modelos cosmológicos: uma espécie de galáxia escura, formada principalmente por gás e matéria escura, mas incapaz de transformar esse material em estrelas.

Um lugar onde as estrelas parecem nunca ter surgido

Cloud-9 está localizada nas proximidades da galáxia espiral M94 e contém uma quantidade estimada em aproximadamente 1 milhão de massas solares de hidrogênio.

Normalmente, grandes concentrações de gás podem entrar em colapso pela ação da gravidade. À medida que o material se concentra e esfria, regiões cada vez mais densas podem surgir e, eventualmente, dar origem a estrelas.

Entretanto, estruturas pequenas dominadas por matéria escura podem enfrentar condições diferentes. A radiação ultravioleta que permeia o Universo consegue aquecer o gás e dificultar sua concentração. Quando a gravidade não consegue vencer esse processo, a formação de estrelas pode ser interrompida.

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É justamente nesse cenário que entra a hipótese de uma galáxia sem estrelas.

O telescópio procurou até pelos sinais mais fracos

Imagem ultraprofunda do HiPERCAM revela a região de Cloud-9. (Imagem: arXiv (2026))

Para descobrir se Cloud-9 realmente não possui estrelas ou apenas contém uma população extremamente tênue, os pesquisadores utilizaram a câmera HiPERCAM, instalada no Gran Telescopio Canarias, nas Ilhas Canárias.

As observações foram realizadas durante duas noites em junho de 2026. A câmera registrou simultaneamente a região em cinco filtros, permitindo procurar diferentes tipos de emissão luminosa.

Além disso, os pesquisadores utilizaram técnicas específicas para aumentar a sensibilidade às estruturas de brilho extremamente baixo. O objetivo era evitar que uma eventual população estelar fraca fosse confundida com o fundo do céu ou eliminada durante o processamento das imagens.

A profundidade alcançada foi suficiente para investigar fontes luminosas que poderiam passar despercebidas em levantamentos anteriores.

E o resultado foi surpreendente: nenhuma luz estelar foi identificada na região central de Cloud-9.

Mais gás do que estrelas em uma proporção impressionante

A ausência de detecção permitiu estabelecer um limite superior para a quantidade de estrelas presente na área analisada.

Os cálculos indicam que Cloud-9 teria, no máximo, aproximadamente 16 mil massas solares em estrelas dentro de uma região com cerca de 4.200 anos-luz de diâmetro.

A comparação com o gás torna o cenário ainda mais peculiar. Para cerca de 1 milhão de massas solares de hidrogênio, o objeto teria menos de 16 mil massas solares em estrelas, caso elas realmente existam.

Isso significa que a quantidade de gás é pelo menos 60 vezes maior que o limite estimado para sua massa estelar.

Para uma estrutura com características semelhantes às de uma galáxia, essa proporção é extraordinariamente baixa.

Uma pista para entender a formação das galáxias

A importância de Cloud-9 vai além da curiosidade de encontrar um objeto aparentemente sem estrelas. Se sua natureza for confirmada, ela poderá ajudar os astrônomos a investigar uma etapa pouco observada da evolução galáctica.

O modelo Lambda de Matéria Escura Fria, conhecido como ΛCDM, prevê a existência de pequenos halos de matéria escura que podem conter gás, mas não necessariamente formar estrelas. Encontrar uma estrutura desse tipo seria uma oportunidade para estudar diretamente como gravidade, gás, radiação e matéria escura interagem em ambientes extremos.

Ainda assim, Cloud-9 não foi definitivamente classificada como uma galáxia escura. Outras explicações continuam possíveis, incluindo estruturas gasosas associadas a interações gravitacionais.

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A pesquisa que levou Cloud-9 ao limite

O estudo “Ultra-deep imaging of the starless galaxy candidate Cloud-9”, liderado por Ignacio Trujillo, foi publicado como pré-publicação no arXiv em 21 de agosto de 2026. O trabalho apresenta as observações ultraprofundas realizadas com o HiPERCAM e estabelece o limite de aproximadamente 16 mil massas solares para a população estelar na região estudada.

O artigo ainda está no formato de pré-publicação, portanto seus resultados devem ser interpretados com a cautela habitual até que passem pelo processo de avaliação por pares.

Mesmo assim, as novas imagens tornam Cloud-9 ainda mais interessante. Caso futuras observações confirmem sua natureza, o objeto poderá oferecer uma rara oportunidade de estudar uma estrutura cósmica onde o gás está presente, a matéria escura pode dominar, mas as estrelas praticamente não aparecem.

Leandro C. Sinis é biólogo formado pela UFRJ e divulgador científico. Com experiência em pesquisa acadêmica, é coautor de um estudo sobre neuroproteção publicado no Journal of Biological Chemistry (DOI: 10.1074/jbc.m117.807180). Sua missão no Fala Ciência é traduzir descobertas complexas em conhecimento acessível e seguro para todos. Ver perfil no LinkedIn | Ver Currículo Lattes