Um buraco negro de massa intermediária está oferecendo aos astrônomos uma pista rara sobre como esses objetos podem crescer longe do centro de uma galáxia. Localizado a cerca de 20 milhões de anos-luz da Terra, o objeto parece estar capturando gás enquanto se desloca pelo espaço, deixando atrás de si uma estrutura conhecida como rastro gravitacional.
A descoberta é especialmente interessante porque esse mecanismo havia sido previsto pela teoria, mas ainda não havia evidência observacional direta tão clara de sua atuação em um buraco negro errante.
Um gigante que não está onde deveria
O objeto está localizado na galáxia anã irregular UGCA 320, fora da região principal onde ocorre a formação de estrelas. Estimativas indicam que ele possui aproximadamente 35 mil vezes a massa do Sol, colocando-o na categoria dos buracos negros de massa intermediária.
Eles ocupam uma faixa entre os buracos negros de menor massa, associados a estrelas, e os gigantes que podem alcançar milhões ou até bilhões de massas solares no centro das galáxias.
Por isso, esses objetos são importantes para entender uma questão ainda aberta na astronomia: como surgiram e cresceram os primeiros buracos negros supermassivos.
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Entrar no Canal do WhatsAppO gás deixa uma espécie de cauda cósmica
Normalmente, um buraco negro localizado no centro de uma galáxia pode ter acesso a grandes quantidades de gás. Entretanto, um objeto que esteja vagando longe do núcleo encontra condições muito diferentes.
Nesse cenário, entra em ação um processo chamado acréscimo de Bondi-Hoyle-Lyttleton. Conforme o buraco negro atravessa o gás interestelar, sua gravidade atrai parte desse material.
O movimento cria uma região mais densa atrás do objeto, formando uma espécie de esteira de gás. Parte desse material pode então ser capturada e direcionada para o buraco negro.
É justamente essa configuração que os pesquisadores encontraram.
As observações espectroscópicas identificaram três componentes importantes:
- gás menos denso à frente do buraco negro;
- uma região mais concentrada atrás dele;
- aglomerados densos dentro da área de captura, associados ao fluxo de material.
A combinação desses sinais oferece uma evidência importante de que o buraco negro realmente pode estar obtendo combustível enquanto se desloca pela galáxia.
O brilho também mudou de forma misteriosa
Outro detalhe chamou a atenção. Observações realizadas em diferentes épocas mostraram mudanças nas linhas largas de emissão de hidrogênio, que funcionam como indicadores da atividade da região ao redor do buraco negro.
Essas emissões eram evidentes em 2021, mas praticamente desapareceram em junho de 2025. Depois, retornaram parcialmente em julho daquele ano e voltaram a diminuir em abril de 2026.
Uma possível explicação é que aglomerados densos de gás estejam passando periodicamente diante da região emissora, bloqueando parte da luz que chega até nós.
Essa variação ajuda a revelar que o ambiente ao redor do objeto está longe de ser estático.
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Uma pista para entender os buracos negros gigantes
O resultado pode ter implicações que vão muito além de UGCA 320. Os buracos negros de massa intermediária são considerados possíveis sementes dos gigantes encontrados nos centros galácticos.
Entretanto, um buraco negro afastado do núcleo aparentemente teria menos oportunidades de acumular matéria. A presença de uma esteira gravitacional capaz de alimentar o objeto em movimento oferece uma possível solução para parte desse problema.
O estudo A Wandering 35,000-Solar-Mass Black Hole Fed by a Gravitational Wake, liderado por Xin Li, foi disponibilizado no arXiv em 11 de agosto de 2026. O trabalho ainda é um preprint, portanto não deve ser apresentado como estudo já publicado em revista científica.
A descoberta abre uma possibilidade fascinante: alguns buracos negros podem crescer enquanto vagam pelas galáxias, usando o próprio rastro deixado pelo movimento como fonte de matéria. Se esse mecanismo também for encontrado em outros objetos, ele poderá ajudar a explicar como alguns desses gigantes cósmicos conseguem aumentar de tamanho mesmo longe dos centros galácticos.
