Estrela pode ter engolido planetas? Berílio revela pista impressionante no espaço 

WASP-12b perde material para a estrela que o hospeda. (Imagem ilustrativa: NASA , ESA e G. Bacon ( STScI ); Ciência: NASA , ESA e C. Haswell (The Open University, Reino Unido))

Uma estrela pode carregar em sua própria luz as pistas de um evento ocorrido há milhões ou bilhões de anos. Foi exatamente esse tipo de evidência que chamou a atenção de astrônomos ao comparar duas estrelas muito semelhantes ao Sol. Uma delas apresenta uma composição química que sugere que material rochoso de origem planetária pode ter sido incorporado à sua estrutura.

A descoberta envolve o sistema binário HD 129171 e HD 129209, formado por duas estrelas parecidas e originadas praticamente da mesma região de formação estelar. Justamente por isso, seria esperado que elas apresentassem composições químicas muito próximas.

No entanto, uma diferença específica chamou atenção: a quantidade de berílio.

Um elemento raro pode entregar o passado de uma estrela

O berílio é particularmente interessante porque estrelas semelhantes ao Sol não produzem esse elemento durante sua evolução na sequência principal. Assim, quando uma diferença significativa aparece entre estrelas que deveriam ser quimicamente semelhantes, os astrônomos podem investigar se algum material externo alterou sua composição.

No caso de HD 129171, os pesquisadores encontraram uma concentração maior de berílio, lítio e elementos refratários, como ferro, magnésio, silício, cálcio e titânio.

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Esses elementos estão entre os componentes encontrados em materiais rochosos, justamente o tipo de matéria que forma planetas terrestres.

A análise indica que a estrela pode ter incorporado uma quantidade de material equivalente a aproximadamente 11,2 vezes a massa da Terra. O modelo, porém, não permite determinar se essa matéria veio de um único planeta ou de vários corpos menores.

A luz das estrelas funciona como uma espécie de impressão digital

Para encontrar essas diferenças, a equipe utilizou observações obtidas pelo espectrógrafo UVES, instalado no Very Large Telescope, do Observatório Europeu do Sul.

O instrumento permite decompor a luz estelar em diferentes comprimentos de onda. Como cada elemento químico deixa marcas específicas no espectro, os pesquisadores conseguem estimar sua abundância mesmo quando a diferença entre duas estrelas é extremamente pequena.

Nesse caso, a comparação entre as duas estrelas foi especialmente útil porque elas possuem características físicas semelhantes. Portanto, uma diferença química dificilmente pode ser explicada apenas pelas condições iniciais de formação do sistema.

O berílio apresentou uma diferença detectável entre as duas estrelas, e o padrão geral de abundâncias foi compatível com um cenário no qual HD 129171 incorporou material rochoso.

Planetas podem ter destinos muito mais extremos

Ilustração mostra uma estrela após engolir um planeta rochoso. (Imagem Ilustrativa: NASA, ESA, CSA, R. Crawford (STScI))

Como um planeta termina dentro de sua própria estrela? Existem diferentes possibilidades.

Entre os mecanismos capazes de alterar drasticamente as órbitas estão:

  • interações gravitacionais entre planetas;
  • perturbações provocadas por uma estrela companheira;
  • migração orbital;
  • encontros próximos entre corpos planetários.

Esses processos podem aumentar a excentricidade das órbitas e tornar um sistema instável. Como consequência, alguns corpos podem ser expulsos, colidir entre si ou acabar caindo em direção à estrela hospedeira.

Isso também levanta uma questão interessante sobre a história dos sistemas planetários. Se episódios desse tipo forem relativamente frequentes, sistemas com configurações estáveis durante bilhões de anos, como o Sistema Solar, podem ser menos comuns do que se imaginava.

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Estudo transforma o berílio em uma nova pista

A pesquisa foi publicada na revista Astronomy & Astrophysics em 16 de junho de 2026, tendo Anne Rathsam como primeira autora. O trabalho analisou precisamente as abundâncias químicas do par HD 129171/HD 129209 e apontou o berílio como um possível diagnóstico de engolfamento de material rochoso em estrelas semelhantes ao Sol.

A importância do resultado está justamente nessa possibilidade. Em vez de procurar diretamente um planeta que desapareceu, os astrônomos podem procurar a assinatura química deixada na estrela depois desse evento.

Essa abordagem também pode contribuir para a chamada marcação química, técnica que utiliza a composição das estrelas para reconstruir sua origem e sua história.

Por enquanto, o resultado é uma evidência favorável ao cenário de engolfamento planetário, e não uma observação direta de uma estrela devorando um planeta. Ainda assim, o berílio oferece uma nova maneira de investigar a história violenta que pode estar escondida dentro de sistemas planetários aparentemente tranquilos.

Leandro C. Sinis é biólogo formado pela UFRJ e divulgador científico. Com experiência em pesquisa acadêmica, é coautor de um estudo sobre neuroproteção publicado no Journal of Biological Chemistry (DOI: 10.1074/jbc.m117.807180). Sua missão no Fala Ciência é traduzir descobertas complexas em conhecimento acessível e seguro para todos. Ver perfil no LinkedIn | Ver Currículo Lattes