Durante muito tempo, a recomendação parecia simples: quanto menos gordura nos laticínios, melhor. Leite desnatado, iogurte com pouca gordura e outros produtos reduzidos em lipídios passaram a ocupar lugar de destaque nas orientações alimentares, principalmente pela preocupação com a gordura saturada.
Entretanto, a discussão científica ficou mais complexa. Novas pesquisas estão mostrando que não basta olhar apenas para a quantidade de gordura presente em um alimento. O tipo de alimento, sua matriz nutricional e o padrão alimentar como um todo também importam.
Um estudo publicado em 2026 trouxe novos dados para essa discussão ao acompanhar adultos com sobrepeso ou obesidade que consumiram laticínios integrais diariamente durante 12 semanas.
A gordura do alimento não conta toda a história
A lógica por trás da preferência pelos laticínios com baixo teor de gordura é compreensível. A gordura do leite contém uma quantidade relevante de gorduras saturadas, e a substituição de parte dessas gorduras por gorduras insaturadas pode ajudar a reduzir o colesterol LDL.
Porém, transformar essa informação em uma regra de que todo alimento integral é pior pode ser simplista.
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Entrar no Canal do WhatsAppLaticínios são uma matriz alimentar complexa, formada não apenas por gordura, mas também por proteínas, cálcio, fósforo, potássio e outros componentes. Além disso, leite, iogurte e queijo não necessariamente produzem os mesmos efeitos no organismo.
Por isso, atualmente, pesquisadores avaliam cada vez mais o alimento inteiro, e não apenas um nutriente isoladamente.
Três porções de laticínios integrais durante 12 semanas
O estudo de Gerald Harvey Anderson, publicado no The Journal of Nutrition de 2026, avaliou 74 adultos com sobrepeso ou obesidade durante 12 semanas.
Os participantes foram distribuídos em diferentes estratégias alimentares. Dois grupos receberam três porções diárias de laticínios integrais, enquanto outro seguiu uma estratégia de restrição energética com baixo consumo de laticínios.
Os resultados chamaram atenção porque o consumo regular de laticínios integrais não provocou aumento de peso, IMC, gordura corporal, glicemia ou colesterol sanguíneo durante o período analisado.
Além disso, no grupo que consumiu três porções de laticínios integrais sem restrição calórica, houve uma redução da pressão arterial sistólica ao final das 12 semanas. A ingestão de proteínas e cálcio também aumentou nos grupos que consumiram mais laticínios.
Isso significa que o integral é melhor?
Não. E essa é uma distinção importante.
O estudo não demonstrou que laticínios integrais são superiores aos produtos com baixo teor de gordura para prevenir doenças cardiovasculares ou promover emagrecimento. O principal achado foi que três porções diárias de laticínios integrais puderam ser incorporadas a uma alimentação saudável sem provocar os efeitos metabólicos negativos avaliados durante as 12 semanas.
Além disso, o estudo teve uma amostra relativamente pequena e duração limitada. Portanto, não é possível utilizar seus resultados para concluir quais versões de laticínios devem ser escolhidas por toda a população.
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A escolha pode depender do restante da alimentação
Para quem precisa controlar colesterol LDL, peso corporal ou ingestão calórica, a quantidade total de gordura e calorias continua sendo relevante.
Por outro lado, para uma pessoa saudável, consumir iogurte natural integral, leite integral ou queijo em porções adequadas não precisa ser automaticamente encarado como uma escolha ruim.
O mais importante é observar o conjunto. Uma alimentação baseada em vegetais, frutas, legumes, grãos integrais, proteínas adequadas e gorduras predominantemente insaturadas continua sendo fundamental.
A grande mudança na discussão sobre os laticínios está justamente aí: não se trata de trocar automaticamente o desnatado pelo integral, mas de compreender que a gordura presente em um alimento inteiro não deve ser analisada isoladamente.
A ciência ainda está investigando essa questão, mas os resultados mais recentes indicam que a antiga ideia de que todo laticínio com gordura é necessariamente prejudicial é simples demais para representar toda a evidência disponível.
