Um estranho duelo entre duas estrelas está produzindo pulsos de rádio pelo espaço 

Ilustração de duas estrelas que interagem e geram intensos feixes de ondas de rádio. (Imagem: Fala Ciência)

Imagine duas estrelas orbitando tão próximas que sua própria dança orbital é capaz de transformar energia magnética em poderosos feixes de ondas de rádio. É exatamente esse tipo de fenômeno que está ajudando astrônomos a explicar uma classe misteriosa de sinais que aparece no céu em intervalos regulares.

O cenário envolve sistemas binários formados por uma anã branca, remanescente extremamente compacto de uma estrela que já chegou ao fim de sua evolução, e uma anã vermelha, uma estrela menor e relativamente fria. Em alguns desses sistemas, radiotelescópios detectam rajadas que retornam a cada poucos minutos e permanecem observáveis durante horas.

Agora, simulações avançadas de plasma indicam que o fenômeno pode ser produzido por um mecanismo conhecido e observado em uma escala muito mais familiar: a interação entre Júpiter e sua lua Io.

Uma dança orbital capaz de produzir ondas de rádio

Dança orbital gera forte emissão de rádio. (Imagem: Fala Ciência)

A chave está no campo magnético extremamente intenso da anã branca. Quando a anã vermelha se movimenta através dessa região magnetizada, o movimento orbital provoca alterações no plasma ao redor das estrelas e favorece a formação de correntes elétricas.

Esse processo cria condições para que elétrons adquiram energia e interajam de maneira coletiva com as linhas do campo magnético. Como resultado, entra em ação a instabilidade ciclotrônica de elétrons, conhecida pela sigla ECMI.

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Em termos simples, a ECMI funciona como um mecanismo capaz de converter a energia das partículas carregadas em emissão de rádio coerente e intensa.

O princípio tem um equivalente no Sistema Solar. Io atravessa continuamente a magnetosfera de Júpiter e, nessa interação, gera correntes elétricas que alimentam emissões de rádio. A diferença é que, no caso das estrelas binárias, o processo acontece em uma escala muito maior e sob condições magnéticas extremas.

Por que os sinais chegam em forma de pulsos?

Uma das características mais intrigantes dessas fontes é a regularidade. As rajadas não aparecem de maneira completamente aleatória. Elas podem surgir em intervalos de minutos, acompanhando o movimento orbital do sistema.

A explicação apresentada pelas simulações é especialmente interessante: a emissão pode permanecer ativa, mas só fica direcionada para a Terra em determinados momentos.

Isso acontece porque a ECMI produz um feixe estreito de radiação. Conforme as duas estrelas continuam orbitando uma à outra, a orientação desse feixe muda. Para um observador distante, o resultado é semelhante ao funcionamento de um farol cósmico: a fonte parece emitir um pulso sempre que o feixe passa pela nossa linha de visão.

Assim, a periodicidade observada não significa necessariamente que a emissão seja ligada e desligada a cada ciclo.

Simulações revelam uma fonte ainda mais eficiente

Para investigar esse processo, Yici Zhong e Elias R. Most utilizaram simulações cinéticas de plasma capazes de acompanhar o comportamento coletivo das partículas e a formação da emissão eletromagnética.

Os resultados indicaram que a ECMI pode converter energia em ondas de rádio com eficiência até dez vezes maior do que algumas estimativas anteriores sugeriam. As simulações também apontaram para características de polarização compatíveis com as propriedades observadas em determinadas fontes de rádio.

Essa informação é importante porque permite conectar os modelos teóricos às observações astronômicas e oferece uma explicação física mais completa para os chamados transientes de rádio de longo período.

Um exemplo é GLEAM-X J0704-37, associado a um sistema formado por uma anã branca e uma anã vermelha. Fontes desse tipo estão ajudando os pesquisadores a identificar uma população até então pouco compreendida de emissores de rádio na Via Láctea.

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Um fenômeno que amplia a importância da ECMI

A descoberta também mostra como um mecanismo físico pode aparecer em ambientes completamente diferentes. A ECMI participa de emissões de rádio associadas a planetas, estrelas e outros objetos magnetizados. Agora, as simulações indicam que ela também consegue explicar sinais produzidos pela interação orbital entre duas estrelas muito diferentes.

O estudo de Yici Zhong e Elias R. Most, publicado em 23 de fevereiro de 2026 no The Astrophysical Journal Letters, utilizou simulações de plasma cinético para investigar justamente esse processo. 

Mais do que explicar um tipo específico de sinal, o resultado oferece uma nova maneira de interpretar rajadas de rádio de longa duração e compreender como campos magnéticos e partículas carregadas interagem em sistemas estelares extremos.

No fim, uma das imagens mais interessantes surge justamente dessa comparação: uma lua atravessando o campo magnético de um planeta e duas estrelas orbitando em um sistema distante podem produzir fenômenos de rádio governados por princípios semelhantes. O Universo, mais uma vez, mostra que mecanismos conhecidos podem ganhar proporções surpreendentes quando encontram ambientes extremos.

Leandro C. Sinis é biólogo formado pela UFRJ e divulgador científico. Com experiência em pesquisa acadêmica, é coautor de um estudo sobre neuroproteção publicado no Journal of Biological Chemistry (DOI: 10.1074/jbc.m117.807180). Sua missão no Fala Ciência é traduzir descobertas complexas em conhecimento acessível e seguro para todos. Ver perfil no LinkedIn | Ver Currículo Lattes