Uma estrela moribunda revelou uma química inesperada que pode mudar nossa visão do cosmos 

ALMA revela enxofre ao redor de uma estrela rara (Imagem: Fala Ciência)

Uma estrela extremamente rara está revelando uma química que permaneceu praticamente invisível aos astrônomos. Ao observar a HD 87643, uma supergigante B[e] localizada em uma fase avançada de sua evolução, pesquisadores identificaram uma coleção de moléculas contendo enxofre, incluindo duas espécies nunca antes detectadas nesse tipo de estrela.

A descoberta transforma HD 87643 em um verdadeiro laboratório natural para investigar como elementos químicos são reorganizados em ambientes estelares extremos.

Uma estrela gigante cercada por material expelido

As supergigantes B[e], conhecidas como sgB[e], são estrelas massivas que já passaram pela principal etapa de consumo de hidrogênio. Nessa fase, elas liberam enormes quantidades de matéria para o espaço.

O material expelido pode formar uma estrutura complexa ao redor da estrela, combinando ventos rápidos, regiões mais densas e discos ricos em gás e poeira.

Até recentemente, o inventário molecular conhecido ao redor de HD 87643 era extremamente limitado. Agora, observações realizadas pelo ALMA, no Chile, identificaram 10 moléculas diferentes, incluindo CO, OCS, H₂CO, SO, SO₂ e outras variações isotópicas.

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Entre elas estão o monóxido de enxofre e o dióxido de enxofre, detectados pela primeira vez em torno de uma supergigante B[e].

O enxofre pode estar contando uma história escondida

Imagens da estrela HD 87643 e mapas de emissão de gás de monóxido de carbono (Imagem: Cristobal Bordiu et al)

O enxofre é relativamente abundante no Universo e também está entre os elementos importantes para a química associada à vida. Ele aparece em ambientes que vão de nuvens interestelares a regiões de formação planetária.

Entretanto, sua presença em torno de estrelas quentes, massivas e evoluídas ainda era pouco conhecida. O estudo liderado por Cristobal Bordiu, publicado em 1º de julho de 2026 no The Astrophysical Journal Letters, revelou ainda uma característica inesperada na composição isotópica do monóxido de enxofre.

A proporção observada entre determinados isótopos ficou próxima de 15, valor considerado muito baixo quando comparado com outros ambientes da Via Láctea.

Uma reação química alimentada pela luz da estrela

Uma possível explicação envolve a intensa radiação ultravioleta emitida por HD 87643. A luz energética pode quebrar moléculas de dióxido de enxofre e produzir monóxido de enxofre. O detalhe está nos diferentes isótopos: moléculas contendo o isótopo mais abundante conseguem se proteger parcialmente da radiação, enquanto as moléculas mais raras ficam mais expostas.

Esse processo pode alterar profundamente a proporção entre os isótopos e produzir um fenômeno conhecido como fracionamento independente da massa.

Esse mecanismo já foi identificado em materiais antigos da Terra e em meteoritos, mas sua ocorrência em um ambiente estelar extremo seria especialmente interessante.

Novas observações de alta resolução do ALMA poderão revelar com mais detalhes como essa química acontece e ajudar a compreender como estrelas massivas devolvem elementos ao espaço, contribuindo para a matéria-prima que participa da formação de novas estrelas, planetas e sistemas químicos complexos.

Leandro C. Sinis é biólogo formado pela UFRJ e divulgador científico. Com experiência em pesquisa acadêmica, é coautor de um estudo sobre neuroproteção publicado no Journal of Biological Chemistry (DOI: 10.1074/jbc.m117.807180). Sua missão no Fala Ciência é traduzir descobertas complexas em conhecimento acessível e seguro para todos. Ver perfil no LinkedIn | Ver Currículo Lattes