Estrela que desafia o espaço tempo pode revelar como um buraco negro gira 

Estrela S301 orbita buraco negro supermassivo Sagitário A*, distorcendo o espaço-tempo. (Imagem: Fala Ciência)

No coração da Via Láctea, uma estrela está realizando uma das viagens mais extremas já observadas. Batizada de S301, ela atinge impressionantes 25 mil quilômetros por segundo, cerca de 8% da velocidade da luz, ao contornar Sagitário A*, o buraco negro supermassivo que ocupa o centro da nossa galáxia. Mais do que um recorde de velocidade, essa descoberta oferece uma oportunidade inédita para testar um dos efeitos mais fascinantes previstos pela Relatividade Geral de Einstein.

Uma órbita que desafia os limites conhecidos

S301 completa uma volta ao redor de Sagitário A* em apenas 8,7 anos, um período extremamente curto para uma estrela que orbita um objeto com cerca de 4 milhões de massas solares.

O momento mais impressionante ocorre durante sua maior aproximação. Nessa passagem, a estrela chega a uma distância equivalente à separação entre Saturno e o Sol, tornando-se o objeto estelar conhecido que mais se aproxima do buraco negro galáctico.

Essa proximidade faz com que S301 experimente um fenômeno raro: o possível efeito da rotação do buraco negro sobre o espaço tempo ao seu redor.

Quando o próprio espaço pode estar girando

Séries temporais de 2021 a 2025 mostrando órbitas estelares ao redor de Sgr A* (Imagem: K. Abd El Dayem et al.)

Segundo a teoria de Einstein, um buraco negro em rotação não apenas gira sobre si mesmo. Ele também arrasta o espaço tempo, alterando sutilmente a trajetória de objetos próximos.

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Como S301 percorre uma órbita extremamente compacta, sua trajetória poderá revelar esse efeito com uma precisão nunca alcançada.

Em estudo publicado na revista Nature em 2026, liderado por K. Abd El Dayem, os pesquisadores apontam que acompanhar a estrela durante sua próxima aproximação, prevista para 2031, poderá permitir a primeira medição direta do chamado spin de um buraco negro supermassivo.

Uma descoberta possível graças a um telescópio virtual gigante

Encontrar S301 exigiu uma tecnologia igualmente extraordinária. A estrela é cerca de 2 bilhões de vezes mais fraca que Betelgeuse, o que torna sua observação extremamente difícil.

A equipe utilizou o Very Large Telescope Interferometer (VLTI), do Observatório Europeu do Sul, no Chile. Com o instrumento GRAVITY+, quatro telescópios de 8 metros passaram a funcionar como um único telescópio virtual, alcançando uma resolução muito superior à de um telescópio individual.

As observações começaram em 2023, mas os cientistas conseguiram reconstruir sua trajetória até 2017, revelando que sua passagem mais próxima ocorreu justamente no início de 2023.

Os dados também sugerem que S301 provavelmente fazia parte de um sistema binário destruído pelas intensas forças gravitacionais de Sagitário A*. Enquanto ela permaneceu presa à gravidade do buraco negro, sua antiga companheira pode ter sido lançada para fora da galáxia.

Agora, todos os olhos estão voltados para 2031, quando a estrela voltará a mergulhar na região onde o próprio tecido do Universo pode revelar como um buraco negro realmente gira.

Leandro C. Sinis é biólogo formado pela UFRJ e divulgador científico. Com experiência em pesquisa acadêmica, é coautor de um estudo sobre neuroproteção publicado no Journal of Biological Chemistry (DOI: 10.1074/jbc.m117.807180). Sua missão no Fala Ciência é traduzir descobertas complexas em conhecimento acessível e seguro para todos. Ver perfil no LinkedIn | Ver Currículo Lattes