Ao longo do dia, uma pessoa com demência pode parecer relativamente tranquila e orientada. Entretanto, conforme a tarde avança, o comportamento pode mudar: a confusão aumenta, surge inquietação, irritabilidade ou dificuldade para reconhecer o ambiente. Esse padrão é conhecido como síndrome do pôr do sol, ou sundowning.
O fenômeno é especialmente observado em pessoas com doença de Alzheimer e outras formas de demência. Embora ainda não exista uma explicação única para ele, alterações no relógio biológico, redução da luminosidade e o próprio cansaço acumulado ao longo do dia parecem participar desse processo.
Cérebro perde parte da referência do horário
O organismo possui um sistema interno que ajuda a organizar o ciclo de sono e vigília, conhecido como ritmo circadiano. Ele é sincronizado principalmente pela alternância entre luz e escuridão.
Na demência, estruturas cerebrais envolvidas nessa regulação podem apresentar alterações. Como consequência, o organismo pode ter mais dificuldade para distinguir adequadamente os períodos do dia.
Quando a luminosidade natural diminui no fim da tarde, essa dificuldade pode se tornar mais evidente. Sombras, ambientes pouco iluminados e mudanças na percepção visual também podem aumentar a desorientação em algumas pessoas.
Além disso, existe outro componente: o cansaço. Depois de várias horas lidando com estímulos, tarefas e informações, uma pessoa com comprometimento cognitivo pode ter menos capacidade de compensar suas dificuldades.
Pesquisa encontrou padrões ligados ao fenômeno
Uma pesquisa publicada no International Journal of Psychiatry in Clinical Practice investigou a síndrome do pôr do sol em 361 pessoas com doença de Alzheimer, com idade média de aproximadamente 78 anos.
O estudo teve como primeira autora Antonina Luca e foi publicado online em 16 de março de 2026. Os pesquisadores utilizaram entrevistas estruturadas com cuidadores para identificar a presença da síndrome e analisaram sua relação com características clínicas e sociodemográficas.
A pesquisa procurou compreender quais fatores estavam associados ao sundowning, em vez de simplesmente considerar a alteração de comportamento como uma consequência inevitável da demência.
Esse tipo de investigação é relevante porque a síndrome pode apresentar manifestações diferentes entre os pacientes. Agitação, confusão e alterações comportamentais no fim do dia não acontecem necessariamente da mesma maneira em todas as pessoas.
O relógio biológico também pode participar dessa mudança
Embora o nome sugira que o problema seja causado pelo pôr do sol, a relação é mais complexa.
Entre os fatores que podem contribuir estão:
- Alterações do ritmo circadiano
- Redução da exposição à luz durante o dia
- Cansaço acumulado
- Distúrbios do sono
- Mudanças na rotina
- Dificuldade de interpretar o ambiente
- Condições físicas ou desconfortos que ficam mais evidentes no fim do dia
Por isso, não é adequado interpretar toda alteração de comportamento no período da tarde como síndrome do pôr do sol.
Uma mudança súbita ou muito intensa na confusão merece avaliação médica, porque infecções, efeitos de medicamentos, desidratação, dor e outras condições também podem provocar alterações cognitivas agudas.
Rotina e ambiente podem fazer diferença
A compreensão do padrão ao longo dos dias pode ajudar a equipe de saúde e os cuidadores a identificar fatores associados aos episódios.
Manter horários relativamente previsíveis, favorecer a exposição à luz natural durante o dia e reduzir estímulos excessivos no fim da tarde são medidas que podem fazer parte de uma abordagem individualizada.
O mais importante, porém, é entender que o sundowning não significa simplesmente que a pessoa “fica difícil” ao anoitecer. Trata-se de uma manifestação comportamental que pode estar relacionada às alterações cerebrais, circadianas e ambientais associadas à demência.
Quanto melhor o padrão for reconhecido, mais fácil pode ser diferenciar uma característica recorrente da demência de uma mudança nova que precisa ser investigada.
