A inteligência artificial encontrou 38 maneiras diferentes de medir o envelhecimento do corpo

Cada órgão pode apresentar um ritmo próprio de envelhecimento. (Imagem ilustrativa: Fala Ciência)

A idade que aparece no documento de identidade conta apenas uma parte da história. Dentro do organismo, órgãos diferentes podem envelhecer em ritmos distintos, e esse processo não parece seguir exatamente o mesmo padrão em mulheres e homens.

Essa diferença acaba de ganhar uma dimensão ainda mais detalhada graças à inteligência artificial. Um estudo publicado na Nature Medicine em 16 de setembro de 2026, liderado por Junhao Wen, desenvolveu 38 relógios biológicos de envelhecimento capazes de analisar 15 sistemas do organismo separadamente.

Seu corpo não envelhece necessariamente na mesma velocidade que você

Para isso, os chamados relógios biológicos utilizam modelos computacionais treinados com informações do organismo. Dependendo da ferramenta, podem entrar na análise dados de exames de imagem, proteínas, metabólitos e outras características biológicas.

Quando a idade estimada pelo modelo se distancia da idade cronológica, os pesquisadores conseguem investigar se esse descompasso está relacionado a diferentes características de saúde.

O problema é que muitos desses modelos foram construídos reunindo mulheres e homens na mesma população. Assim, diferenças específicas do envelhecimento podem acabar escondidas dentro de uma média.

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Um relógio diferente para cada organismo

Infográfico mostra relógios biológicos de envelhecimento específicos por sexo. (Imagem ilustrativa: Fala Ciência)

No novo trabalho, os pesquisadores adotaram outra estratégia. Os modelos foram treinados separadamente para mulheres e homens, permitindo estabelecer referências específicas para cada sexo.

Ao todo, foram desenvolvidos 38 relógios, distribuídos por 15 sistemas orgânicos e diferentes camadas de informação biológica. Os pesquisadores combinaram dados de ressonância magnética, proteômica e metabolômica, além de informações genéticas e clínicas.

Os resultados mostraram diferenças importantes nas assinaturas relacionadas ao envelhecimento.

Entre os processos identificados estavam redes associadas a:

  • sistema imunológico
  • vasos sanguíneos
  • metabolismo
  • conexões entre células nervosas
  • função de diferentes órgãos

Além disso, os modelos específicos apresentaram associações diferentes com doenças sistêmicas e mortalidade, dependendo do órgão analisado e do sexo.

O cérebro chamou atenção por causa do Alzheimer

Uma das partes mais interessantes da pesquisa envolveu o envelhecimento cerebral.

Os cientistas utilizaram dados longitudinais para investigar se a diferença entre idade biológica e cronológica do cérebro estava relacionada à trajetória de declínio cognitivo.

As análises encontraram associações dependentes do sexo entre o relógio cerebral e a evolução cognitiva em contextos relacionados à doença de Alzheimer, incluindo dados de estudos que acompanharam pessoas ao longo do tempo.

Isso não significa que um relógio de inteligência artificial possa diagnosticar Alzheimer ou prever individualmente quando uma pessoa desenvolverá a doença. O resultado mostra, principalmente, que considerar diferenças biológicas entre os sexos pode revelar padrões que modelos agrupados deixam menos visíveis.

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A descoberta não significa que homens e mulheres envelhecem de forma totalmente diferente

Os próprios pesquisadores destacam uma questão importante: existem muitas semelhanças biológicas entre mulheres e homens.

Por isso, modelos que agrupam os sexos continuam sendo úteis em determinadas situações. A proposta não é substituir todas as análises anteriores, mas acrescentar uma camada de precisão quando diferenças específicas precisam ser investigadas.

Na prática, esse tipo de tecnologia ainda está no campo da pesquisa. Porém, os resultados abrem uma possibilidade interessante para o futuro: compreender o envelhecimento de cada órgão de maneira mais individualizada, em vez de tratar o corpo como se todos os seus sistemas envelhecessem na mesma velocidade.

Rafaela Lucena é farmacêutica (CRF-RJ:13912) graduada pela UNIG. Une sua formação em saúde à paixão pela divulgação científica para traduzir estudos clínicos e farmacológicos para o cotidiano. Como responsável técnica pelo Fala Ciência, dedica-se a combater a desinformação com rigor técnico e embasamento científico de qualidade. Ver perfil no LinkedIn