Estresse forte ou dietas restritivas podem fazer a menstruação “desaparecer” por meses 

O estresse intenso pode interferir na regularidade menstrual. (Imagem: Fala Ciência)

A menstruação não depende apenas dos ovários. O cérebro participa ativamente desse processo e, quando percebe que o organismo está sob estresse intenso ou com energia insuficiente, pode reduzir temporariamente os sinais hormonais necessários para manter o ciclo menstrual.

Uma das consequências possíveis é a amenorreia hipotalâmica funcional, caracterizada pela ausência da menstruação sem que exista necessariamente uma doença estrutural nos órgãos reprodutivos. Dietas muito restritivas, perda de peso, exercício excessivo e estresse psicológico podem contribuir para esse quadro.

Isso acontece porque o organismo precisa equilibrar suas funções. Quando a disponibilidade de energia cai demais ou o estresse se torna persistente, a reprodução pode deixar de receber prioridade.

Cérebro percebe que falta energia

O impacto da baixa disponibilidade energética no ciclo menstrual. (Imagem: Fala Ciência)

O hipotálamo funciona como uma espécie de central de controle hormonal. Ele participa da liberação dos sinais que estimulam a hipófise e, posteriormente, os ovários.

Em situações de baixa disponibilidade energética, esse sistema pode desacelerar. Como consequência, os níveis e a frequência dos hormônios envolvidos na ovulação podem mudar, fazendo com que o ciclo menstrual fique irregular ou seja interrompido.

O ponto importante é que isso não depende necessariamente de uma aparência específica ou de um determinado peso corporal. O organismo pode responder à combinação entre ingestão alimentar, gasto energético, estresse e outros fatores individuais.

Pesquisadores encontraram um padrão nutricional inesperado

Uma pesquisa publicada no Journal of Women’s Health avaliou mulheres com amenorreia hipotalâmica funcional e comparou sua ingestão de macronutrientes e micronutrientes com a de mulheres que apresentavam ciclos menstruais regulares.

O estudo teve como primeira autora Erin R. Uddenberg e foi publicado online em 10 de março de 2026.

Os pesquisadores observaram diferenças na ingestão de diversos nutrientes entre os grupos. O trabalho também parte de uma característica importante da amenorreia hipotalâmica funcional: a alimentação insuficiente em relação às necessidades do organismo pode participar do desenvolvimento do problema.

O estudo é observacional e, portanto, não prova que determinado alimento ou nutriente isoladamente provoque ou resolva a ausência da menstruação.

Estresse também pode entrar nessa equação

A alimentação não é o único fator envolvido. Estresse psicológico, exercício físico intenso e baixa disponibilidade energética podem atuar simultaneamente.

Por isso, uma pessoa pode perceber alterações no ciclo depois de atravessar uma fase particularmente exigente, mudar drasticamente sua alimentação ou aumentar muito a carga de exercícios.

Além disso, outras causas precisam ser consideradas. Alterações da tireoide, síndrome dos ovários policísticos, gravidez, alguns medicamentos e outras condições também podem provocar ausência ou irregularidade menstrual.

Ficar meses sem menstruar merece investigação

A ausência prolongada da menstruação não deve ser encarada simplesmente como uma consequência normal de uma rotina estressante ou de uma mudança alimentar.

Quando o ciclo desaparece ou sofre alterações persistentes, uma avaliação médica é importante para descobrir a causa. A amenorreia hipotalâmica funcional também pode estar associada a níveis reduzidos de estrogênio e, quando persiste, pode afetar a saúde óssea.

Portanto, o objetivo não deve ser simplesmente fazer a menstruação voltar rapidamente, mas identificar o motivo pelo qual o ciclo foi interrompido e tratar a causa de forma adequada.

Rafaela Lucena é farmacêutica (CRF-RJ:13912) graduada pela UNIG. Une sua formação em saúde à paixão pela divulgação científica para traduzir estudos clínicos e farmacológicos para o cotidiano. Como responsável técnica pelo Fala Ciência, dedica-se a combater a desinformação com rigor técnico e embasamento científico de qualidade. Ver perfil no LinkedIn