Fermentados podem beneficiar o intestino, mas o efeito no humor surpreende 

O kefir fornece microrganismos associados à fermentação. (Imagem: Fala Ciência)

O intestino não participa apenas da digestão. Ele abriga trilhões de microrganismos que interagem constantemente com o organismo e podem influenciar processos metabólicos, imunológicos e até sinais relacionados ao funcionamento cerebral.

É daí que surgiu o interesse pelo chamado eixo intestino cérebro, uma rede de comunicação que envolve o sistema nervoso, hormônios, sistema imunológico e os microrganismos intestinais.

Nesse contexto, alimentos fermentados como kefir, iogurte, chucrute e alguns vegetais fermentados despertam interesse porque podem fornecer microrganismos e compostos produzidos durante a fermentação. Porém, é importante separar possibilidade biológica de comprovação clínica: ainda não está demonstrado que consumir fermentados trate ansiedade ou melhore o humor de forma consistente.

O intestino conversa com o cérebro o tempo todo

Infográfico explica a complexa comunicação bidirecional do Eixo Intestino-Cérebro. (Imagem: Fala Ciência)

A microbiota intestinal produz e modifica diversas moléculas capazes de participar da comunicação entre intestino e organismo.

Alguns metabólitos produzidos pela atividade bacteriana podem influenciar:

  • Sistema imunológico
  • Barreira intestinal
  • Metabolismo energético
  • Sinalização hormonal
  • Comunicação entre intestino e sistema nervoso

Além disso, o intestino possui uma extensa rede de células nervosas e recebe sinais do sistema nervoso autônomo. Por isso, alterações na função intestinal podem acompanhar mudanças no estado emocional, enquanto estresse e ansiedade também podem modificar o funcionamento gastrointestinal.

Essa relação é bidirecional, e não uma simples sequência em que um alimento automaticamente melhora o humor.

Estudo colocou o kefir à prova

Uma pesquisa publicada no The Journal of Nutrition, em janeiro de 2026, avaliou 65 adultos jovens saudáveis em um ensaio clínico randomizado.

O trabalho, liderado por Hande Bakırhan, dividiu os participantes entre um grupo que consumiu 250 mL de kefir sem lactose diariamente durante seis semanas e um grupo controle. Os pesquisadores avaliaram sintomas gastrointestinais, sono, saúde mental, marcadores bioquímicos, imunidade e inflamação.

Ao final, o grupo que consumiu kefir apresentou redução significativa dos sintomas gastrointestinais, além de mudanças favoráveis em alguns parâmetros bioquímicos. Entretanto, embora as pontuações de saúde mental e qualidade do sono tenham apresentado alterações positivas, essas diferenças não alcançaram significância estatística.

Isso significa que o estudo não permite afirmar que o kefir tenha melhorado a ansiedade ou o humor.

Fermentado não é sinônimo de probiótico

Outro detalhe costuma passar despercebido. Nem todo alimento fermentado contém probióticos comprovados em quantidade suficiente para produzir um benefício específico.

A composição microbiana varia conforme o alimento, os microrganismos utilizados, o processo de fabricação, armazenamento e até o tratamento térmico posterior.

Por isso, não é correto colocar kefir, iogurte, kombucha e vegetais fermentados na mesma categoria e esperar exatamente o mesmo efeito.

Cuidar do intestino é parte de um conjunto maior

Uma alimentação variada, rica em fibras, frutas, verduras, legumes e alimentos minimamente processados, fornece substratos importantes para a microbiota. Os fermentados podem fazer parte desse padrão alimentar, desde que sejam adequados à alimentação individual.

Entretanto, quando existe ansiedade persistente, tristeza frequente ou alterações importantes do sono, a alimentação não deve substituir avaliação e acompanhamento profissional.

Rafaela Lucena é farmacêutica (CRF-RJ:13912) graduada pela UNIG. Une sua formação em saúde à paixão pela divulgação científica para traduzir estudos clínicos e farmacológicos para o cotidiano. Como responsável técnica pelo Fala Ciência, dedica-se a combater a desinformação com rigor técnico e embasamento científico de qualidade. Ver perfil no LinkedIn