Por que o paracetamol é tão perigoso dentro do organismo de cães e gatos?

Paracetamol pode causar intoxicação grave em cães e gatos. (Foto: Fala Ciência via Gemini)

Um comprimido presente em praticamente toda farmácia pode representar um grande risco dentro do organismo de um animal de estimação. O paracetamol, amplamente usado por humanos para aliviar dores e febre, pode se transformar em uma substância altamente tóxica para cães e gatos, principalmente quando administrado sem orientação veterinária.

O problema não está apenas na quantidade ingerida. A grande diferença está na forma como cada espécie consegue processar o medicamento. Enquanto o corpo humano possui mecanismos eficientes para eliminar os compostos gerados pelo metabolismo do paracetamol, os animais apresentam limitações que favorecem o acúmulo de substâncias prejudiciais.

Por isso, um remédio aparentemente simples pode desencadear alterações graves no organismo dos pets.

A química do paracetamol que o fígado dos pets não consegue controlar

Após ser ingerido, o paracetamol passa pelo fígado, onde sofre transformações químicas para ser eliminado.

Durante esse processo, uma pequena parte da substância origina um metabólito chamado NAPQI, que pode causar danos celulares quando aparece em excesso.

Em humanos, esse composto costuma ser neutralizado pela glutationa, uma molécula de defesa produzida pelo organismo. Porém, em cães e gatos, principalmente nos felinos, existem diferenças importantes nesse sistema de metabolização.

Quando as reservas de glutationa são insuficientes, o NAPQI pode se acumular e provocar estresse oxidativo, afetando células do fígado e do sangue.

Por que os gatos correm ainda mais perigo?

Os gatos são especialmente sensíveis ao paracetamol porque possuem baixa capacidade de realizar a chamada glicuronidação, uma etapa metabólica usada para eliminar diversas substâncias do organismo.

Essa limitação faz com que o medicamento permaneça ativo por mais tempo e aumente a formação de compostos tóxicos.

A intoxicação pode causar sinais como:

  • Fraqueza e apatia;
  • Alterações na coloração das mucosas;
  • Dificuldade respiratória;
  • Inchaço na face e nas patas;
  • Lesões no fígado.

Nos cães, o risco também existe, principalmente quando há uso inadequado, doses elevadas ou condições de saúde que aumentam a vulnerabilidade do animal.

A pesquisa que explicou o perigo do paracetamol nos felinos

A toxicidade do paracetamol em gatos foi analisada no estudo “Intoxicação por paracetamol em gatos”, publicado na Revista de Ciências Agroveterinárias em 2013, com autoria principal de Otávia Dorigon.

A pesquisa descreveu os mecanismos envolvidos na intoxicação e explicou que os gatos apresentam dificuldade para metabolizar o medicamento devido às características específicas do metabolismo hepático da espécie.

O estudo mostrou que o paracetamol pode provocar a formação de meta-hemoglobina, uma alteração que prejudica o transporte adequado de oxigênio pelo sangue. Além disso, a intoxicação pode causar danos ao fígado e manifestações clínicas como cianose, edema, fraqueza e alterações respiratórias.

Os autores destacaram que a ingestão do medicamento pode evoluir rapidamente e exige atendimento veterinário para avaliação e tratamento adequado.

O maior perigo está em tratar pets como se fossem humanos

Um erro comum entre tutores é imaginar que medicamentos seguros para pessoas também podem ser utilizados em animais. Porém, cães e gatos possuem diferenças profundas no funcionamento do organismo.

A dose, a substância escolhida e até a forma de eliminação de um medicamento podem mudar completamente entre espécies.

Por isso, sinais como dor, febre ou indisposição nunca devem ser tratados com remédios humanos sem recomendação de um veterinário.

Caso um animal ingira paracetamol acidentalmente, a busca por atendimento rápido é fundamental. A avaliação precoce aumenta as chances de evitar complicações mais graves.

O caso do paracetamol mostra que a segurança de um medicamento depende de quem o recebe. Para humanos, ele pode ser um aliado contra dores comuns. Para cães e gatos, porém, pode se transformar em uma ameaça silenciosa dentro do organismo.

Rafaela Lucena é farmacêutica (CRF-RJ:13912) graduada pela UNIG. Une sua formação em saúde à paixão pela divulgação científica para traduzir estudos clínicos e farmacológicos para o cotidiano. Como responsável técnica pelo Fala Ciência, dedica-se a combater a desinformação com rigor técnico e embasamento científico de qualidade. Ver perfil no LinkedIn