O maracujá acalma mesmo? A ciência revela o composto por trás do efeito

Passiflora possui compostos estudados contra o estresse. (Foto: TrueCreatives via Canva)

O maracujá ganhou uma reputação curiosa ao longo dos anos: a de ser uma fruta capaz de acalmar os nervos. O costume de tomar um suco antes de dormir ou em momentos de tensão se espalhou pela cultura popular, mas a ciência aponta que o verdadeiro interesse está em outro lugar.

O chamado efeito calmante do maracujá está relacionado principalmente aos compostos bioativos presentes na Passiflora, especialmente em espécies estudadas como a Passiflora incarnata, conhecida como maracujá medicinal.

Essas substâncias não aparecem necessariamente em grande quantidade no suco comum preparado com a polpa da fruta. Por isso, pesquisadores analisam principalmente extratos da planta, especialmente das folhas e partes aéreas, onde há maior concentração de moléculas estudadas pelo potencial de atuação no sistema nervoso.

O composto da Passiflora que despertou atenção da ciência

O interesse pelo maracujá medicinal está ligado aos flavonoides, compostos naturais produzidos pelas plantas que possuem diversas funções biológicas.

Entre as substâncias investigadas estão:

  • Vitexina;
  • Isovitexina;
  • Orientina;
  • Outros compostos fenólicos presentes na Passiflora.

Essas moléculas são estudadas pela possível influência sobre o sistema GABAérgico, uma via relacionada ao neurotransmissor GABA, responsável por ajudar a equilibrar a atividade dos neurônios.

Quando esse sistema funciona adequadamente, o cérebro consegue controlar melhor estados de alerta e relaxamento. Por isso, a hipótese científica é que determinados compostos da Passiflora possam contribuir para uma resposta mais tranquila do organismo diante de situações de estresse.

Por que o suco de maracujá não é exatamente o foco dos estudos?

Apesar de a fruta ser nutritiva e fazer parte de uma alimentação saudável, existe uma diferença entre consumir o alimento e utilizar um extrato concentrado da planta.

O suco de maracujá oferece:

  • Água para hidratação;
  • Fibras;
  • Vitaminas e minerais;
  • Compostos antioxidantes.

Por outro lado, pesquisas sobre o efeito calmante geralmente utilizam preparações específicas de Passiflora incarnata, desenvolvidas para concentrar os componentes considerados ativos.

Isso significa que tomar um copo de suco pode ser uma escolha saudável, mas não é possível afirmar que ele terá o mesmo efeito observado em estudos com extratos padronizados.

Estudo clínico identifica mudanças fisiológicas após o uso da Passiflora 

A relação entre a Passiflora incarnata e a resposta ao estresse foi investigada em um estudo clínico publicado na revista Scientific Reports.

A pesquisa “Effects of Passiflora incarnata on salivary biomarkers and anxiety in patients undergoing third molar extraction surgery”, publicada em 11 de dezembro de 2025, teve como autor principal Tiburtino José Lima Neto.

O estudo avaliou pacientes submetidos à extração do terceiro molar, uma situação conhecida por provocar ansiedade antes do procedimento. Os participantes foram divididos para receber Passiflora incarnata, placebo ou midazolam, enquanto os pesquisadores analisaram escalas de ansiedade e marcadores fisiológicos, incluindo o cortisol salivar, um indicador relacionado ao estresse.

Os resultados mostraram que a Passiflora reduziu os níveis de cortisol salivar após o procedimento quando comparada ao placebo, apresentando efeito semelhante ao midazolam nesse marcador biológico. Entretanto, os questionários utilizados para medir a ansiedade percebida pelos pacientes não apresentaram diferença significativa entre os grupos.

Na prática, o estudo sugere que a planta pode influenciar respostas físicas associadas ao estresse, mas não comprovou que ela reduz diretamente a sensação de ansiedade em todas as situações.

O maracujá tem efeito calmante, mas a ciência faz uma distinção importante

A fama relaxante do maracujá não surgiu por acaso. Ela está ligada aos compostos naturais da Passiflora, principalmente flavonoides que podem participar de mecanismos relacionados ao equilíbrio do sistema nervoso.

Porém, é importante separar tradição popular de evidência científica. O efeito mais estudado vem de extratos da planta, e não necessariamente do consumo do suco tradicional.

A ciência continua investigando como esses compostos atuam no organismo, mas o maracujá já representa um exemplo interessante de como uma planta comum pode esconder moléculas capazes de influenciar processos ligados ao estresse e ao bem-estar.

Rafaela Lucena é farmacêutica (CRF-RJ:13912) graduada pela UNIG. Une sua formação em saúde à paixão pela divulgação científica para traduzir estudos clínicos e farmacológicos para o cotidiano. Como responsável técnica pelo Fala Ciência, dedica-se a combater a desinformação com rigor técnico e embasamento científico de qualidade. Ver perfil no LinkedIn