Por que gatos não sentem o sabor doce? A resposta está no DNA

Gatos não percebem o sabor doce como os humanos. (Imagem ilustrativa: Fala Ciência).

Quem oferece um pedacinho de doce a um gato pode perceber uma reação curiosa: o animal até pode se aproximar, cheirar e lamber o alimento, mas não experimenta a mesma sensação de sabor que uma pessoa teria. Isso acontece porque, ao longo da evolução, os felinos perderam uma peça fundamental do sistema responsável por detectar o gosto doce.

A explicação está no DNA. Diferentemente de humanos e cães, os gatos domésticos não possuem um receptor doce funcional completo. Essa característica está diretamente relacionada à história evolutiva de uma linhagem de animais altamente especializada no consumo de carne.

Um sabor que simplesmente deixou de ser necessário

Por que os gatos não sentem sabor doce: uma falha genética molecular. (Imagem ilustrativa: Fala Ciência).

Nos mamíferos, a percepção do doce depende principalmente da combinação de duas proteínas, chamadas T1R2 e T1R3, produzidas pelos genes TAS1R2 e TAS1R3. Quando essas proteínas se unem, formam um receptor capaz de reconhecer moléculas como açúcares.

Nos gatos, porém, essa engrenagem apresenta uma falha genética importante.

O gene TAS1R2 tornou-se um pseudogene, ou seja, uma sequência de DNA que perdeu a capacidade de produzir uma proteína funcional. Estudos identificaram uma alteração que impede a formação adequada dessa parte do receptor. Sem T1R2 funcional, o complexo necessário para detectar o doce não consegue ser formado normalmente.

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Por isso, dizer que gatos não sentem o gosto doce é mais do que uma curiosidade comportamental. Trata-se de uma característica relacionada à própria biologia molecular do paladar felino.

O DNA acompanha a dieta dos grandes caçadores

Essa alteração faz sentido quando observamos a alimentação dos felinos. Gatos domésticos e seus parentes selvagens pertencem a um grupo de carnívoros obrigatórios, altamente adaptados à obtenção de nutrientes a partir de tecidos animais.

Açúcares e carboidratos simples não representam uma fonte alimentar central para esses animais. Assim, durante a evolução, a manutenção de um sistema sofisticado para detectar açúcares provavelmente deixou de oferecer uma vantagem importante.

A evolução não funciona como um projeto que preserva todas as características. Quando determinada função deixa de trazer benefícios relevantes, alterações genéticas que seriam importantes em outras espécies podem permanecer ao longo das gerações.

Um estudo publicado em Current Biology em 2026, liderado por Jiaqing Yuan, analisou genomas de diferentes felinos e mostrou como a história evolutiva desse grupo envolve alterações genéticas, ancestralidade compartilhada e seleção associada a características ecológicas. O trabalho ajuda a compreender como o genoma dos felinos foi moldado ao longo de sua diversificação.

O paladar do gato não é simplesmente “ruim”

Isso não significa que os gatos tenham um paladar pouco desenvolvido. Na verdade, eles possuem mecanismos especializados para perceber outros componentes dos alimentos.

Aminoácidos, substâncias amargas e compostos associados à carne são muito mais relevantes para a alimentação desses animais. O sistema gustativo felino, portanto, não desapareceu. Ele foi moldado de maneira diferente.

Essa distinção também explica por que um gato pode demonstrar interesse por sorvete, iogurte ou outros alimentos humanos sem necessariamente estar procurando o açúcar. Gorduras, proteínas, aromas e textura podem ser estímulos muito mais importantes para o animal.

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Uma adaptação escondida no paladar

A incapacidade de perceber o doce é um exemplo fascinante de como genes e alimentação estão conectados. O gato não escolheu abandonar o açúcar. Ao longo de milhões de anos de evolução, seu organismo foi se tornando cada vez mais especializado em uma dieta na qual detectar esse sabor tinha pouca utilidade.

Assim, enquanto humanos podem procurar naturalmente o sabor doce, o gato vive em um mundo sensorial diferente. Para ele, o verdadeiro atrativo alimentar está muito mais próximo dos sinais químicos encontrados em uma presa do que do açúcar presente em uma sobremesa.

Leandro C. Sinis é biólogo formado pela UFRJ e divulgador científico. Com experiência em pesquisa acadêmica, é coautor de um estudo sobre neuroproteção publicado no Journal of Biological Chemistry (DOI: 10.1074/jbc.m117.807180). Sua missão no Fala Ciência é traduzir descobertas complexas em conhecimento acessível e seguro para todos. Ver perfil no LinkedIn | Ver Currículo Lattes