Alzheimer canino existe? Conheça a Síndrome da Disfunção Cognitiva e os sinais de que o cão idoso está desorientado 

Identificar mudanças cedo ajuda na avaliação veterinária. (Imagem ilustrativa: Getty Images via Canva)

Quando um cão idoso começa a ficar desorientado dentro de casa, esquecer rotinas ou mudar seu comportamento, é comum que o tutor atribua tudo à idade. No entanto, algumas dessas alterações podem indicar algo além do envelhecimento natural.

A chamada Síndrome da Disfunção Cognitiva Canina (SDCC) é uma condição neurodegenerativa associada ao envelhecimento e apresenta características semelhantes às observadas na doença de Alzheimer em humanos. Por isso, embora não seja correto dizer que cães têm Alzheimer da mesma forma que pessoas, a comparação ajuda a compreender o problema.

Quando o envelhecimento começa a afetar a rotina?

Imagem mostra a posição do buraco negro errante em UGCA 320. (Imagem: Xin Li et al / arXiv (2026))

A disfunção cognitiva canina pode comprometer diferentes funções do cérebro. Além disso, os sinais tendem a aparecer de maneira gradual, o que faz com que passem despercebidos durante algum tempo.

Entre os comportamentos que merecem atenção estão:

  • desorientação em ambientes conhecidos;
  • dificuldade para reconhecer pessoas ou animais;
  • alterações no ciclo de sono e vigília;
  • acidentes dentro de casa em um cão que já era treinado;
  • redução do interesse por brincadeiras e atividades;
  • mudanças na interação social;
  • aumento da ansiedade ou inquietação;
  • dificuldade para aprender ou lembrar comandos conhecidos.

Um cachorro pode, por exemplo, permanecer parado diante de uma parede, parecer não saber como voltar para um cômodo ou acordar várias vezes durante a noite.

Gostou dessa notícia?

Siga o canal do Fala Ciência no WhatsApp para receber nossos conteúdos em primeira mão!

Entrar no Canal do WhatsApp

Porém, esses sinais não significam automaticamente que o animal tenha disfunção cognitiva. Dor, perda de visão ou audição e outras doenças também podem provocar mudanças comportamentais.

Um estudo observou os cães no dia a dia

Uma pesquisa publicada em 2 de fevereiro de 2026 na revista Frontiers in Aging Neuroscience, com E. García como primeira autora, analisou 57 cães com oito anos ou mais. Os animais passaram por avaliação física, teste de memória visuoespacial e aplicação de uma escala específica para sinais de disfunção cognitiva.

Os pesquisadores também analisaram uma lista ampla de comportamentos realizados pelos cães no cotidiano. A análise encontrou relações entre memória, mobilidade, motivação, capacidade de aprendizado e alterações sensoriais e os resultados dos testes cognitivos.

Um ponto especialmente importante foi a influência de problemas físicos e sensoriais. Isso significa que uma dificuldade para se movimentar, enxergar ou ouvir pode interferir no comportamento e até parecer, inicialmente, um problema de memória.

Por isso, a avaliação veterinária precisa considerar o conjunto de sinais, e não apenas uma mudança isolada.

O cérebro também envelhece nos cães

Com o avanço da idade, alguns cães apresentam alterações no cérebro que podem acompanhar a deterioração cognitiva. Entre os fenômenos estudados estão depósitos de beta-amiloide, perda de neurônios e alterações em regiões relacionadas à memória.

Essa semelhança biológica é uma das razões pelas quais cães idosos também são estudados em pesquisas sobre envelhecimento cerebral.

Ainda assim, a SDCC não deve ser encarada como uma versão simplesmente idêntica do Alzheimer humano. São condições distintas, embora apresentem características clínicas e neuropatológicas semelhantes.

Veja mais:

Mudanças pequenas podem ser importantes

O tutor conhece melhor do que ninguém os hábitos do próprio cachorro. Por isso, alterações persistentes na rotina merecem atenção, principalmente quando surgem em um animal mais velho.

Vale observar mudanças como andar sem objetivo, ficar preso em cantos, dormir durante o dia e permanecer acordado à noite, esquecer comandos conhecidos ou deixar de interagir como antes.

Quanto mais cedo essas alterações forem percebidas, mais cedo o veterinário poderá investigar outras causas e avaliar se existe comprometimento cognitivo.

A idade avançada não significa, portanto, que o cão simplesmente tenha que aceitar qualquer mudança de comportamento. Observar, registrar e investigar os sinais pode fazer diferença para preservar a qualidade de vida do animal.

Rafaela Lucena é farmacêutica (CRF-RJ:13912) graduada pela UNIG. Une sua formação em saúde à paixão pela divulgação científica para traduzir estudos clínicos e farmacológicos para o cotidiano. Como responsável técnica pelo Fala Ciência, dedica-se a combater a desinformação com rigor técnico e embasamento científico de qualidade. Ver perfil no LinkedIn