Os computadores atuais são extremamente rápidos, mas existe um problema que cresce junto com essa capacidade: processar cada vez mais informação exige muita energia. Uma nova tecnologia desenvolvida por pesquisadores dos Laboratórios Nacionais Sandia aposta em uma mudança menos óbvia: fazer a própria memória assumir parte do trabalho computacional.
O dispositivo, chamado ETCRAM, pertence a uma nova geração de memórias analógicas. Diferentemente das memórias digitais tradicionais, que trabalham principalmente com estados binários, ele consegue representar diferentes níveis de informação dentro do mesmo componente.
A ideia pode parecer simples, mas abre uma possibilidade importante para dispositivos que precisam analisar enormes quantidades de dados sem enviar tudo para um processador distante.
Uma memória que não pensa apenas em zero e um
Nos chips digitais convencionais, a informação é representada por combinações de zeros e uns. A ETCRAM segue outro caminho.
O componente utiliza processos eletroquímicos para modificar a resistência elétrica de materiais em seu interior. Com isso, consegue manter diferentes estados analógicos, permitindo armazenar valores intermediários em vez de apenas alternar entre duas condições.
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Entrar no Canal do WhatsAppO funcionamento envolve óxidos de vanádio e ativação térmica localizada. O aquecimento ajuda a acelerar os processos eletroquímicos e permite controlar com precisão o estado do dispositivo.
Na prática, isso cria uma espécie de memória contínua, mais parecida com um botão que pode assumir muitos níveis do que com um simples interruptor ligado ou desligado.
Uma bateria que virou inspiração para a memória
Existe outra maneira interessante de entender a tecnologia. Imagine uma bateria sendo carregada até a metade. Mesmo sem estar completamente cheia ou vazia, ela mantém um estado intermediário que pode ser medido.
A ETCRAM utiliza uma lógica semelhante para representar informação. Seu estado eletroquímico funciona como uma espécie de “memória” física, que pode ser programada e posteriormente utilizada.
Porém, a tecnologia vai além de simplesmente guardar dados.
O estudo mostrou que o mesmo componente também apresenta comportamentos semelhantes aos encontrados em sinapses e neurônios, incluindo mudanças analógicas de resistência e chaveamento não linear. Isso interessa especialmente ao desenvolvimento de hardware para inteligência artificial e computação neuromórfica.
Um chip que processa dados mais perto dos sensores
Uma das aplicações mais interessantes está na chamada computação de borda, na qual os dados são processados perto do local onde são coletados.
Pense em uma câmera de celular. O sensor captura enormes quantidades de informação visual, mas apenas uma parte precisa ser enviada para outras etapas de processamento. Se o próprio hardware próximo ao sensor conseguir realizar determinadas operações, menos dados precisarão circular pelo sistema.
Isso pode ser útil em:
- câmeras e sensores inteligentes;
- dispositivos de inteligência artificial;
- veículos com sistemas avançados de sensores;
- equipamentos industriais;
- eletrônicos de baixo consumo.
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O estudo que revelou o potencial da ETCRAM
A pesquisa liderada por Sangheon Oh, foi publicada na revista Science Advances em 10 de julho de 2026. O trabalho demonstrou uma ETCRAM verticalmente integrada baseada em óxido de vanádio, combinando armazenamento analógico programável com comportamentos de chaveamento semelhantes aos de neurônios.
O resultado ainda está distante de significar uma substituição imediata das memórias utilizadas em celulares ou computadores. A demonstração ocorreu em escala de pesquisa, e ainda existem desafios relacionados à integração, fabricação e escalabilidade.
Mesmo assim, a proposta chama atenção porque muda a divisão tradicional entre memória e processamento. Em vez de apenas guardar informações, a memória também pode participar do cálculo. E, em uma era de inteligência artificial e sensores cada vez mais numerosos, reduzir o caminho percorrido pelos dados pode ser tão importante quanto aumentar a velocidade dos chips.
