O impacto de 2 xícaras de café no combate ao acúmulo de gordura no fígado 

O consumo habitual de café foi analisado em milhares de adultos. (Imagem: Fala Ciência)

O café costuma aparecer nas conversas sobre energia, concentração e disposição. Entretanto, existe outro possível efeito que chama atenção da ciência: a relação entre o consumo habitual da bebida e a saúde do fígado.

A esteatose hepática, conhecida popularmente como gordura no fígado, ocorre quando há acúmulo excessivo de gordura dentro das células hepáticas. Ela está frequentemente relacionada a alterações metabólicas, como resistência à insulina, excesso de peso e alterações nos triglicerídeos.

Nesse cenário, o café passou a despertar interesse porque contém centenas de compostos biologicamente ativos. Entre eles estão cafeína, polifenóis e outros componentes antioxidantes, que podem participar de mecanismos relacionados ao metabolismo e à inflamação.

Duas xícaras apareceram em um ponto interessante da análise

Uma pesquisa publicada na Public Health Nutrition em 2 de fevereiro de 2026, liderada por Penglin Chen, analisou dados de 8.062 adultos participantes do National Health and Nutrition Examination Survey, realizado nos Estados Unidos entre 2013 e 2018.

Depois de considerar diferentes fatores que poderiam influenciar os resultados, os pesquisadores encontraram uma associação inversa entre consumo de café e ocorrência de doença hepática gordurosa. Em outras palavras, pessoas que consumiam mais café apresentavam menor probabilidade de apresentar esteatose hepática na análise.

O resultado que mais chama atenção apareceu entre as mulheres. Nesse grupo, a análise de dose resposta identificou duas xícaras de café por dia como o ponto associado ao menor risco de doença hepática gordurosa.

É importante, porém, interpretar esse número corretamente. O estudo não demonstrou que beber exatamente duas xícaras fará a gordura desaparecer do fígado. Trata-se de uma pesquisa observacional, portanto, não é possível estabelecer uma relação de causa e efeito.

A gordura no fígado não aparece apenas por causa da alimentação

Fatores de risco para esteatose hepática e o papel do café no tratamento. (Imagem: Fala Ciência)

A esteatose hepática é um problema multifatorial. O consumo excessivo de calorias pode participar do processo, mas fatores metabólicos também têm papel importante.

Entre os elementos associados estão:

  • resistência à insulina
  • excesso de gordura corporal
  • triglicerídeos elevados
  • diabetes tipo 2
  • sedentarismo
  • alterações do metabolismo da glicose

Por isso, acrescentar café à rotina não compensa uma alimentação desequilibrada ou outros fatores de risco. A bebida pode fazer parte de um padrão alimentar saudável, mas não substitui o tratamento da esteatose hepática.

O café pode ser apenas uma peça desse quebra-cabeça

Os mecanismos que poderiam explicar a associação ainda estão sendo investigados. Compostos presentes no café podem influenciar vias relacionadas ao metabolismo da glicose, ao estresse oxidativo e à inflamação.

Além disso, o estudo de 2026 encontrou diferenças conforme sexo e nível educacional, mostrando que a relação entre café e saúde hepática não é necessariamente igual para todas as pessoas.

Outro detalhe merece atenção: o resultado não significa que quanto mais café, melhor. A pesquisa encontrou uma associação específica, e não uma recomendação para aumentar indefinidamente o consumo.

Também é preciso considerar a forma como a bebida é preparada. Café carregado de açúcar, cremes e outros ingredientes pode acrescentar calorias à dieta e mudar completamente o contexto nutricional da bebida.

Duas xícaras não são uma receita para eliminar gordura

A principal mensagem do estudo é mais interessante do que simplesmente estabelecer uma quantidade diária. O consumo habitual de café apareceu associado a menor ocorrência de esteatose hepática, e duas xícaras foram o ponto observado entre as mulheres.

Ainda assim, quem já apresenta gordura no fígado deve encarar o café como parte de um conjunto maior de hábitos. Alimentação equilibrada, atividade física, controle metabólico e acompanhamento profissional continuam sendo fundamentais.

Portanto, o café pode ter um lugar interessante dentro de uma rotina saudável, mas não deve ser tratado como um tratamento isolado para gordura no fígado.

Rafaela Lucena é farmacêutica (CRF-RJ:13912) graduada pela UNIG. Une sua formação em saúde à paixão pela divulgação científica para traduzir estudos clínicos e farmacológicos para o cotidiano. Como responsável técnica pelo Fala Ciência, dedica-se a combater a desinformação com rigor técnico e embasamento científico de qualidade. Ver perfil no LinkedIn