Composto da hortelã ajuda a eliminar os gases e acabar com o estufamento 

A hortelã contém compostos estudados por seus efeitos no intestino. (Imagem: Fala Ciência)

A sensação de barriga cheia, pressão abdominal e excesso de gases pode transformar uma refeição comum em um grande desconforto. Em algumas pessoas, o estufamento aparece mesmo sem uma quantidade excepcional de gases, porque o intestino pode ficar mais sensível à distensão.

É nesse cenário que a hortelã-pimenta desperta interesse. A planta contém mentol e outros compostos bioativos que são estudados por sua ação sobre o trato gastrointestinal. O mecanismo mais conhecido envolve o relaxamento da musculatura intestinal, o que pode modificar a percepção de cólicas e desconforto.

Mas existe uma diferença importante entre um mecanismo biologicamente plausível e um tratamento comprovadamente eficaz. A evidência clínica mais recente exige justamente essa cautela.

O composto que dá à hortelã seu efeito refrescante

Mentol alivia espasmos digestivos, mas a produção de gases continua. (Imagem: Fala Ciência)

O mentol é um dos principais componentes do óleo essencial de hortelã-pimenta. Além de produzir a conhecida sensação de frescor, ele interage com receptores presentes em diferentes tecidos do organismo.

No sistema digestivo, compostos da hortelã-pimenta são investigados principalmente por sua capacidade de influenciar a motilidade e os espasmos da musculatura gastrointestinal.

Quando há contrações excessivas ou descoordenadas, a pessoa pode perceber mais dor, pressão e sensação de barriga estufada. Portanto, diminuir determinados espasmos pode ajudar a reduzir o desconforto em algumas condições digestivas.

Isso, porém, não significa que a hortelã literalmente faça todo o gás desaparecer. Gases intestinais continuam sendo produzidos normalmente durante a digestão, e o efeito potencial está mais relacionado à forma como o intestino se movimenta e como o desconforto é percebido.

Estudo colocou o óleo de hortelã à prova

Um ensaio clínico randomizado publicado no Clinical Gastroenterology and Hepatology em agosto de 2026, liderado por Nicolaas Koen Vermeijden, avaliou 228 crianças e adolescentes de 8 a 18 anos com síndrome do intestino irritável ou dor abdominal funcional.

Os participantes receberam cápsulas de óleo de hortelã-pimenta, balas de hortelã ou placebo durante oito semanas. O objetivo principal era verificar se o tratamento produziria uma redução significativa na intensidade da dor abdominal.

O resultado foi surpreendente: o óleo de hortelã-pimenta não apresentou benefício estatisticamente superior ao placebo. A melhora adequada dos sintomas também foi semelhante entre os grupos. Os efeitos adversos foram considerados leves e pouco frequentes.

Esse resultado é especialmente importante porque mostra que não podemos transformar automaticamente a ação do mentol no intestino em uma promessa de que hortelã eliminará gases ou acabará com o estufamento.

Além disso, o estudo foi realizado em crianças e adolescentes, portanto seus resultados não podem ser aplicados diretamente a todos os adultos.

Estufamento nem sempre significa excesso de gases

Existe outro detalhe que costuma passar despercebido. Barriga estufada não significa necessariamente que exista uma quantidade exagerada de gás no intestino.

A sensação pode estar relacionada à sensibilidade intestinal, alterações na movimentação do trato digestivo, constipação, síndrome do intestino irritável ou determinados alimentos.

Por isso, se o estufamento é frequente, intenso ou acompanhado de dor persistente, alterações importantes nas evacuações, perda de peso ou sangue nas fezes, é importante investigar a causa em vez de tentar apenas aliviar o sintoma.

A hortelã pode continuar sendo estudada como fonte de compostos com atividade gastrointestinal. Entretanto, a ciência atual indica que seu potencial não deve ser confundido com uma garantia de eliminar gases.

Rafaela Lucena é farmacêutica (CRF-RJ:13912) graduada pela UNIG. Une sua formação em saúde à paixão pela divulgação científica para traduzir estudos clínicos e farmacológicos para o cotidiano. Como responsável técnica pelo Fala Ciência, dedica-se a combater a desinformação com rigor técnico e embasamento científico de qualidade. Ver perfil no LinkedIn