O comprimido falso que melhorou memória e reduziu estresse em idosos 

Idosos tiveram menos estresse com placebo aberto. (Foto: Pixelshot via Canva)
Idosos tiveram menos estresse com placebo aberto. (Foto: Pixelshot via Canva)

A ideia de que um comprimido sem princípio ativo possa gerar efeitos reais no corpo sempre despertou curiosidade. No entanto, uma nova pesquisa sugere algo ainda mais surpreendente: mesmo quando as pessoas sabem que estão tomando um placebo, ainda assim podem apresentar melhorias em funções importantes como memória, estresse e desempenho físico.

Esse fenômeno abre uma nova perspectiva sobre como a mente influencia o corpo, especialmente no contexto do envelhecimento saudável.

Cérebro responde mesmo sabendo da verdade

O estudo foi conduzido por pesquisadores da Università Cattolica de Milão e publicado no International Journal of Clinical and Health Psychology, em 2026, liderado por Diletta Barbiani, Alessandro Antonietti e Francesco Pagnini.

A pesquisa avaliou se o chamado placebo aberto poderia produzir benefícios reais em adultos mais velhos, ou seja, quando o participante é informado de que está recebendo uma substância inativa.

Surpreendentemente, os resultados mostraram que o organismo ainda responde a esse tipo de intervenção, indicando que expectativas, atenção e percepção podem modular funções biológicas de forma mensurável.

Como o estudo foi estruturado

Foram recrutados 90 idosos saudáveis, divididos em três grupos:

  • Um grupo sem intervenção
  • Um grupo que recebeu placebo acreditando ser um suplemento ativo
  • Um grupo que sabia estar tomando um placebo

Antes e depois de três semanas, os participantes passaram por testes cognitivos e físicos, além de responderem questionários sobre estresse, bem-estar, fadiga e otimismo.

Os resultados chamaram atenção pela consistência das mudanças observadas.

Ganhos reais em memória, corpo e estresse

Após o período de intervenção, os pesquisadores observaram:

  • Redução significativa do estresse percebido, especialmente no grupo que sabia do placebo
  • Melhora da memória de curto prazo em comparação ao grupo sem intervenção
  • Aumento do desempenho físico, com ganhos de até 9,2%
  • Melhora de até 21,5% em testes cognitivos, dependendo da avaliação
  • Redução da sonolência e fadiga

Esses efeitos foram comparáveis a intervenções conhecidas como exercícios físicos estruturados e treinamentos cognitivos leves, o que reforça o impacto do estado mental sobre o corpo.

Por que o placebo pode funcionar mesmo quando é “falso”?

O ponto mais intrigante é que o benefício não depende apenas da crença cega no tratamento. Mesmo sabendo que não há substância ativa, o simples ato de participar de um protocolo estruturado pode ativar mecanismos psicológicos importantes, como:

  • Expectativa positiva controlada
  • Atenção ao próprio corpo
  • Mudanças de comportamento inconscientes
  • Redução do estresse basal

Esses fatores podem influenciar diretamente sistemas como o neurológico, hormonal e imunológico, criando efeitos mensuráveis no organismo.

O que isso significa para o envelhecimento saudável

Os pesquisadores destacam que o uso de placebos abertos pode se tornar uma estratégia complementar no cuidado de idosos, especialmente por ser uma abordagem ética, segura e de baixo custo.

Mais do que um “efeito psicológico”, os resultados sugerem uma interação complexa entre cognição, emoção e fisiologia, mostrando que o cérebro pode modular funções corporais mesmo sem substâncias farmacológicas envolvidas.

A mente como parte ativa da saúde física

O estudo reforça uma visão cada vez mais aceita na ciência: o envelhecimento não depende apenas do corpo, mas também da forma como a mente interpreta e responde às experiências.

Quando pensamentos, expectativas e emoções são estimulados de forma positiva e estruturada, o organismo pode apresentar mudanças reais em energia, foco e capacidade cognitiva.

Rafaela Lucena é farmacêutica (CRF-RJ:13912) graduada pela UNIG. Une sua formação em saúde à paixão pela divulgação científica para traduzir estudos clínicos e farmacológicos para o cotidiano. Como responsável técnica pelo Fala Ciência, dedica-se a combater a desinformação com rigor técnico e embasamento científico de qualidade. Ver perfil no LinkedIn

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