Lontras começam a agir diferente quando percebem visitantes no zoológico, revela estudo 

Seis lontras são observadas durante pesquisa no zoológico. (Imagem: Zoológico de Adelaide.)

Uma cena comum em zoológicos pode esconder uma dinâmica inesperada: enquanto as pessoas observam as lontras, elas também parecem prestar atenção aos visitantes. E, ao contrário do que se poderia imaginar, a presença de público não esteve associada a sinais evidentes de estresse em um grupo de lontras-de-unhas-curtas asiáticas.

O achado vem de uma pesquisa realizada por cientistas da Universidade de Adelaide, na Austrália. O trabalho acompanhou seis animais durante seis meses e analisou justamente como a presença de pessoas estava relacionada à atividade e às vocalizações das lontras.

Mais gente, mais movimento dentro do recinto

Os pesquisadores acompanharam os animais em sessões de observação e registraram seus comportamentos em diferentes situações, incluindo momentos com visitantes, com funcionários e períodos em que havia menor presença humana.

Um dos resultados mais interessantes foi a diferença no nível de atividade. Quando havia pessoas presentes durante pelo menos metade dos intervalos de observação, as lontras apresentavam uma proporção significativamente maior de comportamentos ativos.

Nessas condições, a atividade chegou a aproximadamente 39,6% dos registros, contra cerca de 16,4% nos períodos com menor presença de pessoas.

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Além disso, as lontras passaram menos tempo fora da área visível do recinto quando havia mais pessoas. Esse detalhe é importante porque permanecer escondido ou fora do campo de observação pode alterar bastante a interpretação sobre como um animal está reagindo ao ambiente.

Porém, isso não significa que visitantes necessariamente deixem as lontras mais felizes.

Vocalizações aumentaram, mas ainda há um mistério

O som das lontras no zoológico: excitação ou estresse? (Imagem: Fala Ciência)

A pesquisa também encontrou uma associação entre a presença de pessoas e a ocorrência de vocalizações. Entretanto, existe uma limitação fundamental: os cientistas registraram apenas se os animais vocalizaram ou não, sem identificar exatamente qual tipo de som foi produzido.

Essa diferença é crucial.

Lontras são animais sociais e bastante comunicativos. Dependendo do contexto, uma vocalização pode estar relacionada a interação social, excitação, expectativa ou estresse. Portanto, simplesmente contar quantas vezes os animais emitiram sons não permite determinar o estado emocional deles.

É justamente por isso que estudos futuros precisam analisar os diferentes tipos de vocalização e relacioná-los a outros indicadores de comportamento e bem-estar.

O estudo não prova que visitantes beneficiam as lontras

Apesar do resultado curioso, é necessário evitar uma conclusão precipitada. A pesquisa foi observacional, ou seja, os cientistas acompanharam o que acontecia naturalmente no zoológico, sem controlar experimentalmente a quantidade de visitantes.

Isso cria uma possibilidade interessante: talvez as lontras tenham ficado mais ativas porque havia pessoas por perto. Mas também pode ter ocorrido o contrário. Lontras mais ativas podem simplesmente ter atraído mais visitantes para o recinto.

Além disso, fatores como horário, clima e proximidade dos períodos de alimentação também podem influenciar o comportamento dos animais.

O estudo, portanto, não demonstra que multidões sejam benéficas para lontras. O que ele mostra é que a relação entre visitantes e comportamento animal pode ser muito mais complexa do que uma simples associação entre presença humana e estresse.

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Uma espécie vulnerável e cheia de particularidades

A lontra-de-unhas-curtas asiática (Aonyx cinereus) é uma espécie social e vocal classificada como vulnerável à extinção. Por isso, compreender seu comportamento em ambientes sob cuidados humanos é relevante para programas de conservação, reprodução e educação ambiental.

A pesquisa foi publicada por Paige Klingner, Bridget Cooper-Rogers e Eduardo J. Fernandez no Journal of Zoological and Botanical Gardens, em 22 de junho de 2026.

No fim, a descoberta deixa uma questão fascinante em aberto: quando uma lontra aparece, nada, brinca e vocaliza diante de uma multidão, ela está reagindo às pessoas ou simplesmente aproveitando o próprio momento de maior atividade? Responder isso exigirá observações mais detalhadas, mas os resultados já mostram que o comportamento desses animais diante do público merece ser estudado com muito mais atenção.

Leandro C. Sinis é biólogo formado pela UFRJ e divulgador científico. Com experiência em pesquisa acadêmica, é coautor de um estudo sobre neuroproteção publicado no Journal of Biological Chemistry (DOI: 10.1074/jbc.m117.807180). Sua missão no Fala Ciência é traduzir descobertas complexas em conhecimento acessível e seguro para todos. Ver perfil no LinkedIn | Ver Currículo Lattes