Morcegos carregam vírus perigosos sem adoecer e um detalhe no DNA pode explicar

Estudo revela uma defesa genética incomum nos morcegos. (Imagem: Getty Images via Canva)

Durante milhões de anos, os morcegos desenvolveram uma capacidade impressionante: conviver com diversos vírus sem apresentar os mesmos efeitos graves observados em outras espécies. Esse fenômeno chama atenção porque alguns desses microrganismos podem provocar doenças importantes quando chegam a outros mamíferos.

Uma nova descoberta ajuda a explicar parte desse enigma. Pesquisadores identificaram uma característica genética incomum no sistema imunológico de um grande grupo de morcegos, revelando uma estratégia de defesa que, até então, não havia sido observada em nenhum outro mamífero conhecido.

Uma arquitetura diferente para fabricar anticorpos

A descoberta envolve os chamados morcegos vespertinos, grupo que reúne mais de 500 espécies distribuídas por praticamente todo o planeta. Nesses animais, os cientistas encontraram dois conjuntos distintos de genes responsáveis pela produção das cadeias pesadas das imunoglobulinas, componentes fundamentais dos anticorpos.

Para entender a importância disso, os anticorpos funcionam como proteínas de reconhecimento. Depois que o organismo entra em contato com um agente infeccioso, eles ajudam o sistema imunológico a identificar estruturas específicas do invasor e a organizar uma resposta contra ele.

Em mamíferos, esse processo normalmente depende de um único conjunto desses genes. Nos morcegos estudados, entretanto, existem duas versões independentes desse sistema genético.

Gostou dessa notícia?

Siga o canal do Fala Ciência no WhatsApp para receber nossos conteúdos em primeira mão!

Entrar no Canal do WhatsApp

Essa diferença pode ampliar as possibilidades de combinação utilizadas pelo organismo para produzir anticorpos. Na prática, isso significa uma potencial diversificação da resposta imunológica adaptativa, justamente aquela parte do sistema de defesa que desenvolve respostas específicas contra diferentes agentes infecciosos.

Uma pista para entender a resistência dos morcegos

Genoma dos morcegos explica tolerância viral sem adoecer. (Imagem: Fala Ciência)

A descoberta não significa que os pesquisadores tenham encontrado uma explicação completa para a capacidade dos morcegos de carregar vírus sem adoecer gravemente. A relação é muito mais complexa.

O organismo desses animais também apresenta características particulares relacionadas ao metabolismo, ao voo, à inflamação e à imunidade inata. Portanto, a duplicação dos genes das imunoglobulinas deve ser vista como uma possível peça de um quebra-cabeça maior.

Ainda assim, a característica chama atenção porque oferece uma nova perspectiva sobre a evolução do sistema imunológico dos morcegos. Em vez de observar apenas mecanismos já conhecidos, os cientistas passam a investigar como mudanças na própria organização do genoma podem ter contribuído para a diversidade das respostas contra infecções.

A descoberta publicada na Science Advances

O achado foi descrito por Taylor Pursell, autor principal do estudo, e colaboradores na revista científica Science Advances, em 29 de julho de 2026. O trabalho, intitulado Duplication of the immunoglobulin heavy chain locus in bats, investigou a organização do chamado lócus da cadeia pesada da imunoglobulina nesses animais.

O estudo é importante porque amplia o conhecimento sobre a imunidade adaptativa dos morcegos, uma área que pode ajudar a compreender por que esses mamíferos conseguem manter relações particulares com diferentes vírus.

Além disso, conhecer mecanismos naturais de resistência pode ter aplicações futuras. A investigação de espécies com estratégias imunológicas diferentes das humanas permite identificar princípios biológicos que, posteriormente, podem ajudar na compreensão de doenças infecciosas e respostas imunológicas.

Veja também:

Por que estudar morcegos interessa à saúde humana?

Os morcegos não são importantes apenas por sua relação com vírus. Eles desempenham funções ecológicas essenciais, incluindo controle de insetos, polinização e dispersão de sementes.

Por isso, compreender sua biologia também significa entender melhor o papel desses animais nos ecossistemas e os mecanismos que permitem sua coexistência com diferentes microrganismos.

A descoberta dos dois sistemas de genes relacionados aos anticorpos abre, portanto, uma nova frente de investigação. Os morcegos podem estar escondendo estratégias imunológicas ainda desconhecidas, e cada uma delas pode revelar como a evolução encontrou diferentes maneiras de proteger um organismo contra infecções.

Leandro C. Sinis é biólogo formado pela UFRJ e divulgador científico. Com sólida experiência em pesquisa acadêmica de ponta, é coautor de um estudo internacional sobre neuroproteção publicado no renomado Journal of Biological Chemistry (DOI: 10.1074/jbc.m117.807180). Como editor e fundador do Portal Fala Ciência, sua missão é combater a desinformação, traduzindo descobertas complexas em conhecimento jornalístico acessível, transparente e seguro para todos. Ver perfil no LinkedIn | Ver Currículo Lattes