Golfinho faz peixes vomitarem comida e descobre um jeito inusitado de se alimentar 

Golfinho Bubbles se alimenta do regurgitado de um xaréu. (Imagem: Romney Edwards-Francis, Ecology and Evoloution)

No fundo do mar, uma perseguição pode terminar de uma maneira inesperada. Em vez de capturar diretamente um peixe, o golfinho Bubbles parece ter desenvolvido uma estratégia na qual o próprio alvo acaba liberando alimento que estava dentro do estômago.

A cena foi registrada na Grande Barreira de Corais, na Austrália, e chamou atenção dos pesquisadores porque o comportamento se repetiu durante vários anos.

O animal perseguia indivíduos de xaréu-olho-grande (Caranx sexfasciatus) até que eles regurgitassem parte do alimento ingerido. Logo depois, o golfinho consumia o material expelido enquanto o peixe escapava.

Esse tipo de comportamento é chamado de cleptoparasitismo, uma estratégia em que um animal obtém alimento produzido ou capturado por outro. No caso de Bubbles, porém, existe um detalhe ainda mais incomum: o golfinho aparentemente induz o outro animal a liberar a comida.

Uma estratégia repetida por quatro anos

Golfinho Bubbles se alimenta do regurgitado de um xaréu. (Imagem: Romney Edwards-Francis, Ecology and Evoloution)

Os pesquisadores acompanharam registros realizados entre 2021 e 2025 nas águas rasas próximas à Ilha Lady Elliot, no sul da Grande Barreira de Corais.

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Ao todo, foram documentadas 11 interações alimentares nas quais o mesmo golfinho perseguia um xaréu específico, provocava a regurgitação e depois consumia o alimento.

Além disso, o comportamento não parecia ocorrer de maneira aleatória. Bubbles selecionava um peixe dentro do cardume e concentrava a perseguição naquele indivíduo, ignorando outros peixes próximos.

Em algumas ocasiões, a sequência chegou a ser repetida várias vezes durante aproximadamente meia hora.

Os registros indicam uma sequência bastante característica:

  • identificação de um peixe específico;
  • perseguição intensa;
  • regurgitação do alimento pelo peixe;
  • consumo do material pelo golfinho;
  • retorno ao cardume para repetir a estratégia.

O som do golfinho pode ter um papel importante

A pesquisa também encontrou um detalhe intrigante. Durante as perseguições, Bubbles produzia sequências intensas de cliques de ecolocalização e sons tonais de baixa frequência.

Ainda não é possível afirmar exatamente qual função esses sons desempenham. Uma hipótese é que a atividade acústica esteja relacionada à identificação do alvo. Outra possibilidade é que participe da pressão exercida sobre o peixe durante a perseguição.

Os pesquisadores também consideram que Bubbles possa ter aprendido a reconhecer quais indivíduos oferecem maior quantidade de alimento.

Entretanto, essa interpretação ainda é uma hipótese, e o estudo não demonstra que o golfinho consiga determinar previamente quais peixes estão com o estômago mais cheio.

Um comportamento que economiza energia?

Existe uma possível vantagem nessa estratégia. A caça direta exige tempo, deslocamento e gasto energético, especialmente quando a presa é rápida.

Ao fazer outro animal realizar parte do trabalho, o golfinho poderia obter alimento com um custo diferente daquele envolvido na captura convencional.

Isso ganha importância porque Bubbles foi observado realizando essas interações sozinho, enquanto golfinhos-nariz-de-garrafa também são conhecidos por utilizar estratégias cooperativas de alimentação.

Ainda assim, os pesquisadores não calcularam o balanço energético dessa estratégia. Portanto, não é possível afirmar que o comportamento seja necessariamente mais eficiente do que outras formas de alimentação.

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Um caso isolado que pode revelar algo maior

O estudo é particularmente interessante porque representa a primeira evidência direta de cleptoparasitismo em um cetáceo, segundo os autores. Registros anteriores levantavam suspeitas de comportamentos semelhantes em outros cetáceos, mas sem observar diretamente o consumo do alimento regurgitado.

Ao mesmo tempo, existe uma grande cautela na interpretação. Até agora, Bubbles é o único indivíduo documentado utilizando essa estratégia.

Isso significa que não se sabe se outros golfinhos apresentam o mesmo comportamento ou se ele é uma especialização desenvolvida por esse animal.

A dificuldade de observar a alimentação de cetáceos debaixo d’água também pode esconder comportamentos semelhantes. Por isso, tecnologias como drones, câmeras subaquáticas e equipamentos instalados nos próprios animais podem ajudar a revelar outras estratégias ainda desconhecidas.

O estudo foi publicado por Romney Edwards-Francis e colaboradores em 13 de setembro de 2026, na revista científica Ecology and Evolution.

Leandro C. Sinis é biólogo formado pela UFRJ e divulgador científico. Com experiência em pesquisa acadêmica, é coautor de um estudo sobre neuroproteção publicado no Journal of Biological Chemistry (DOI: 10.1074/jbc.m117.807180). Sua missão no Fala Ciência é traduzir descobertas complexas em conhecimento acessível e seguro para todos. Ver perfil no LinkedIn | Ver Currículo Lattes