Em algumas sociedades animais, criar filhotes está longe de ser uma tarefa individual. Várias fêmeas sexualmente maduras podem se reproduzir dentro do mesmo grupo e ainda dividir os cuidados com os filhotes, formando uma espécie de rede de criação que desafia uma ideia bastante difundida sobre a reprodução cooperativa.
Esse comportamento chama atenção porque, durante muito tempo, determinados grupos de animais foram interpretados como sistemas nos quais apenas uma fêmea teria acesso à reprodução, enquanto as demais ajudariam a cuidar da prole. Um novo estudo mostra que essa visão pode ser simplista demais.
Quando várias mães dividem a mesma tarefa
A chamada reprodução cooperativa ocorre quando indivíduos adultos ajudam a criar filhotes que não são necessariamente seus. O auxílio pode envolver alimentação, proteção, vigilância e outras atividades importantes para a sobrevivência da prole.
O ponto central da nova pesquisa é que nem toda fêmea auxiliar deixou de se reproduzir. Em muitos casos, as fêmeas adultas que vivem juntas também possuem seus próprios filhotes e participam dos cuidados com os descendentes de outras integrantes do grupo.
Para investigar esse padrão, os pesquisadores analisaram informações de 101 populações pertencentes a 73 espécies de aves e mamíferos. Os dados permitiram observar não apenas as características gerais de cada espécie, mas também a composição social de diferentes populações.
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Entrar no Canal do WhatsAppEssa diferença é importante porque uma mesma espécie pode apresentar organizações sociais distintas dependendo da população estudada.
O detalhe que muda a interpretação
O trabalho foi publicado em 26 de agosto de 2026, na revista científica Proceedings of the Royal Society B: Biological Sciences, tendo Yitzchak Ben Mocha como primeiro autor.
Os resultados indicaram que, quando múltiplas fêmeas sexualmente maduras vivem no mesmo grupo, é mais comum encontrar compartilhamento da reprodução e cuidado aloparental, no qual uma fêmea ajuda a cuidar dos filhotes de outra.
Isso muda uma interpretação importante da reprodução cooperativa. Se uma população é classificada simplesmente como uma espécie em que existem “fêmeas auxiliares”, pode parecer que essas fêmeas abriram mão da própria reprodução para beneficiar uma dominante.
Entretanto, em muitos casos, a realidade social é mais complexa. Uma fêmea pode, por exemplo, produzir seus próprios filhotes e simultaneamente alimentar ou proteger os descendentes de outra fêmea. Assim, cooperação e reprodução própria não são necessariamente comportamentos incompatíveis.
Uma sociedade animal muito mais complexa
Um exemplo é o papa-moscas-arábico (Argya squamiceps), uma ave conhecida pela criação cooperativa. Nesse sistema, diversos adultos podem participar dos cuidados com os filhotes do grupo.
A pesquisa também chama atenção para um problema metodológico: ignorar quem realmente vive dentro de cada grupo pode distorcer a interpretação do comportamento social.
Por isso, os pesquisadores utilizaram dados organizados pelo projeto Co-BreeD, uma base voltada ao estudo comparativo da reprodução cooperativa em aves e mamíferos. A proposta é considerar informações específicas de população, local e período, em vez de transformar toda uma espécie em uma única categoria social.
Na prática, o estudo mostra que a vida em grupo pode produzir uma dinâmica muito diferente daquela baseada exclusivamente em competição. Para muitas fêmeas, reproduzir e cuidar da prole parece ser menos uma disputa individual e mais uma atividade compartilhada.
Os próximos estudos poderão investigar quais condições ecológicas e sociais favorecem a formação desses grupos com várias fêmeas e permitem que a cooperação reprodutiva se mantenha ao longo do tempo.
