Cientistas descobrem que células do sangue invadem o cérebro durante o envelhecimento 

Células do sangue podem chegar ao cérebro com o envelhecimento. (Imagem: Fala Ciência)

Durante muito tempo, os cientistas acreditaram que o cérebro funcionava quase como um território protegido do restante do sistema imunológico. Isso acontece porque existe uma estrutura chamada barreira hematoencefálica, que dificulta a entrada de muitas substâncias e células no tecido cerebral.

Agora, uma pesquisa realizada por cientistas de Stanford mostra que essa separação pode mudar com o passar dos anos. Células de defesa que circulam pelo sangue conseguem entrar no cérebro humano durante o envelhecimento.

Mais do que isso, depois de chegar ao cérebro, essas células podem mudar suas características e assumir funções semelhantes às da micróglia, um tipo de célula que ajuda a proteger e manter o tecido cerebral.

A descoberta pode mudar a maneira como os cientistas entendem o envelhecimento do cérebro e também abrir novas linhas de pesquisa sobre doenças como Alzheimer.

O cérebro ganha novas células de defesa com a idade

Cérebro ganha novas células de defesa. (Imagem: Fala Ciência)

A micróglia funciona como uma espécie de equipe de vigilância do cérebro. Essas células ajudam a identificar alterações, remover resíduos e participar das respostas de defesa do sistema nervoso.

Até recentemente, a ideia predominante era que a maior parte da micróglia surgia muito cedo na vida e permanecia no cérebro durante décadas, sem receber uma contribuição significativa das células produzidas pela medula óssea.

O novo estudo apresenta um cenário diferente.

Os pesquisadores analisaram amostras de sangue e tecido cerebral humano e procuraram marcas no DNA que permitissem descobrir de onde vinham as células encontradas no cérebro.

Para entender isso de forma simples, imagine que cada célula carregue pequenas marcas de sua história. Algumas mutações surgem naturalmente nas células-tronco do sangue ao longo da vida. Quando células diferentes apresentam as mesmas marcas, isso indica que elas provavelmente têm uma origem em comum.

Foi exatamente esse tipo de comparação que os cientistas fizeram.

Células do sangue conseguem chegar ao cérebro

Os resultados mostraram que células imunológicas originadas no sangue estavam presentes no cérebro humano. Segundo o estudo, esse processo já podia ser observado a partir da meia-idade.

A descoberta é importante porque mostra que o cérebro não permanece completamente isolado do sistema imunológico durante toda a vida.

E existe outro detalhe ainda mais interessante: depois de entrar no cérebro, essas células podem assumir características semelhantes às da micróglia.

Ou seja, elas não apenas chegam ao tecido cerebral. O ambiente encontrado ali parece fazer com que essas células mudem seu comportamento e sua aparência para desempenhar funções mais parecidas com as das células de defesa que já vivem no cérebro.

Descoberta pode ajudar nas pesquisas sobre Alzheimer

A pesquisa também chama atenção por causa de possíveis relações com o Alzheimer.

Os cientistas já investigavam determinadas células imunológicas do sangue que pareciam estar associadas a uma menor probabilidade de desenvolver a doença. A nova descoberta oferece uma possível explicação para esse fenômeno, embora ainda não seja possível afirmar que essas células protejam contra o Alzheimer.

Se células do sangue conseguem chegar ao cérebro, os pesquisadores poderão estudar no futuro se é possível usar essas células para levar funções específicas ao tecido cerebral.

Uma possibilidade seria modificar células imunológicas para que elas reconhecessem determinados problemas associados a doenças neurodegenerativas. Entretanto, essa ideia ainda está no campo experimental e não representa um tratamento disponível.

Estudo revela uma característica aparentemente humana

A pesquisa foi publicada em 2026 na revista científica Nature, tendo Julia A. Belk como primeira autora. O trabalho utilizou alterações genéticas presentes nas células para investigar a origem da micróglia durante o envelhecimento humano.

Um dos pontos mais surpreendentes foi que o fenômeno observado no cérebro humano não parece acontecer da mesma maneira em camundongos e primatas não humanos.

Isso é relevante porque grande parte das pesquisas sobre envelhecimento e doenças cerebrais depende de modelos animais. Se determinados processos forem realmente diferentes nos seres humanos, isso poderá ajudar a explicar por que algumas descobertas feitas em animais não se repetem da mesma forma em pacientes.

No fim, a pesquisa mostra que existe uma ligação mais próxima do que se imaginava entre o sangue, o sistema imunológico e o cérebro. A descoberta abre novas possibilidades para entender como o cérebro muda com a idade e qual pode ser o impacto dessas alterações no desenvolvimento de doenças como o Alzheimer.

Rafaela Lucena é farmacêutica (CRF-RJ:13912) graduada pela UNIG. Une sua formação em saúde à paixão pela divulgação científica para traduzir estudos clínicos e farmacológicos para o cotidiano. Como responsável técnica pelo Fala Ciência, dedica-se a combater a desinformação com rigor técnico e embasamento científico de qualidade. Ver perfil no LinkedIn