Irritação, ansiedade e sono ruim podem ter ligação com a progesterona 

Oscilações hormonais podem afetar o humor antes da menstruação. (Imagem: Getty Images via Canva)

Nos últimos dias antes da menstruação, algumas mulheres percebem uma mudança difícil de ignorar: irritabilidade, maior sensibilidade emocional, cansaço e sono desregulado. Essas alterações não acontecem simplesmente porque o organismo está “entrando na TPM”. Existe uma complexa comunicação entre os hormônios ovarianos e o cérebro, e a progesterona participa dessa dinâmica.

Durante a segunda metade do ciclo menstrual, chamada fase lútea, a progesterona aumenta após a ovulação. Se não ocorre gravidez, seus níveis começam a cair no final dessa fase. Essa mudança hormonal acontece junto com outras alterações endócrinas e pode coincidir com modificações no humor, na percepção do estresse e no sono.

A queda hormonal chega ao cérebro

Infográfico explica como a oscilação hormonal afeta o cérebro e o humor. (Imagem: Fala Ciência)

A progesterona não atua apenas no sistema reprodutivo. Seus metabólitos, especialmente a alopregnanolona, interagem com receptores do sistema nervoso central envolvidos na regulação da atividade cerebral.

Por isso, a oscilação hormonal pode influenciar mecanismos relacionados à ansiedade, irritabilidade, resposta ao estresse e sono. No entanto, é importante evitar uma explicação simplista. A mesma variação hormonal pode ser percebida de maneira muito diferente entre as mulheres.

Além disso, não é necessariamente a quantidade absoluta de progesterona que determina os sintomas. Em algumas pessoas, o cérebro parece apresentar maior sensibilidade às mudanças hormonais normais do ciclo.

Pesquisa encontrou mudanças importantes perto da menstruação

Um estudo publicado em 17 de abril de 2026 na revista científica npj Women’s Health acompanhou 68 mulheres saudáveis durante 75 dias para investigar mudanças relacionadas ao ciclo menstrual.

O trabalho foi liderado por Belinda Pletzer e identificou aumento da vulnerabilidade ao estresse, redução da sociabilidade e alterações em aspectos relacionados à saúde mental durante o período próximo à menstruação. Os sintomas avaliados incluíram ansiedade, irritabilidade, instabilidade emocional e sintomas depressivos.

Os pesquisadores também destacaram a fase lútea, caracterizada por mudanças na progesterona, como um período potencialmente mais sensível ao estresse. Entretanto, o estudo não demonstra que a progesterona isoladamente seja a causa direta das alterações de humor. Essa distinção é fundamental, porque estrogênio, progesterona, seus metabólitos e outros sistemas cerebrais variam simultaneamente.

Por que o sono também pode sair do ritmo?

A relação com o sono é igualmente complexa. A progesterona e seus metabólitos possuem efeitos sobre circuitos cerebrais envolvidos na inibição neuronal, o que ajuda a explicar por que mudanças nesses hormônios podem modificar a sensação de sonolência e a qualidade do descanso.

Ao mesmo tempo, a fase pré menstrual pode envolver alterações de temperatura corporal, desconforto físico, ansiedade e mudanças no humor, fatores que também interferem na capacidade de dormir bem.

Assim, uma noite mal dormida pode não ser consequência de um único hormônio. O resultado final surge da interação entre sistema nervoso, hormônios, temperatura corporal, estresse e sintomas pré menstruais.

Quando a alteração deixa de ser apenas uma oscilação?

É comum apresentar alguma mudança de humor antes da menstruação. Porém, sintomas intensos, recorrentes e capazes de prejudicar trabalho, relacionamentos ou atividades cotidianas merecem avaliação profissional.

A compreensão da relação entre progesterona, cérebro, humor e sono ajuda justamente a diferenciar uma oscilação fisiológica de quadros como a síndrome pré menstrual e o transtorno disfórico pré menstrual.

Portanto, a queda da progesterona no final do ciclo é uma peça importante desse quebra cabeça, mas não explica sozinha tudo o que acontece antes da menstruação. O cérebro responde à dinâmica hormonal, e a intensidade dessa resposta varia consideravelmente de uma mulher para outra.

Rafaela Lucena é farmacêutica (CRF-RJ:13912) graduada pela UNIG. Une sua formação em saúde à paixão pela divulgação científica para traduzir estudos clínicos e farmacológicos para o cotidiano. Como responsável técnica pelo Fala Ciência, dedica-se a combater a desinformação com rigor técnico e embasamento científico de qualidade. Ver perfil no LinkedIn