Comer o “bagaço” da laranja evita o acúmulo de gordura abdominal; entenda 

A parte branca da laranja concentra fibras e compostos bioativos. (Imagem: Fala Ciência)

Aquela parte branca e fibrosa que fica presa aos gomos da laranja costuma ser descartada. No entanto, esse chamado bagaço da laranja, formado principalmente pela polpa residual, membranas e componentes ricos em fibras, concentra substâncias que despertam interesse científico.

Entre elas estão pectina, flavonoides e outros compostos bioativos. A hipótese é que essa combinação possa influenciar a digestão, o metabolismo e a microbiota intestinal. Mas existe uma diferença importante entre uma possibilidade biológica e uma promessa de emagrecimento.

Até o momento, não há evidência suficiente para afirmar que comer o bagaço da laranja impeça, sozinho, o acúmulo de gordura abdominal em seres humanos.

A parte fibrosa da fruta pode ter uma função metabólica

Fibra da laranja: saciedade e metabolismo. (Imagem: Fala Ciência)

Quando a laranja é consumida inteira, em vez de transformada em suco, a ingestão de fibras aumenta. Essas fibras podem contribuir para uma digestão mais lenta e para maior sensação de saciedade.

Além disso, o bagaço cítrico contém pectina, uma fibra solúvel capaz de interagir com a microbiota intestinal. Durante sua fermentação, podem ser produzidos metabólitos que participam da comunicação entre intestino e metabolismo.

Os flavonoides presentes nas partes menos valorizadas da fruta também estão sendo estudados por seus possíveis efeitos sobre processos relacionados ao metabolismo energético e à inflamação.

Isso não significa, porém, que exista um efeito localizado sobre a barriga. Nenhum alimento consegue escolher de onde o organismo vai retirar ou armazenar gordura.

O estudo que investigou a relação entre fibra de laranja e gordura

Uma pesquisa publicada na revista científica Poultry Science avaliou os efeitos da adição de fibra de laranja à alimentação de 192 frangos. O estudo, liderado por Xiaoyan Cui, foi publicado online em 7 de janeiro de 2026 e posteriormente apareceu no volume de março da revista.

Os animais receberam dietas contendo diferentes concentrações de fibra de laranja. Nos grupos que receberam 4% e 6% do ingrediente, os pesquisadores observaram alterações no depósito de gordura abdominal, além de mudanças nos ácidos graxos de cadeia curta e na composição da microbiota intestinal.

O resultado é interessante porque sugere que a fibra proveniente da laranja pode interferir em processos relacionados ao metabolismo da gordura. Entretanto, existe uma limitação essencial: frangos não são seres humanos.

Portanto, esse estudo não permite dizer que comer o bagaço da laranja fará uma pessoa perder barriga.

A microbiota pode estar no centro dessa história

Uma das possibilidades investigadas pela ciência envolve justamente o intestino.

As fibras chegam parcialmente não digeridas ao cólon, onde podem ser utilizadas por microrganismos. Esse processo produz compostos que participam de diferentes vias metabólicas.

Uma revisão publicada em Nutrients em 31 de março de 2026 analisou evidências sobre ingredientes derivados da casca da laranja e destacou o interesse em fibras, pectina e flavonoides para a saúde gastrointestinal e cardiometabólica. No entanto, os autores também apontaram que os dados clínicos em humanos ainda são limitados e heterogêneos.

Por isso, o benefício mais plausível de consumir a laranja inteira está relacionado ao conjunto nutricional da fruta, e não a um suposto efeito queimador de gordura.

Comer a fruta inteira continua sendo a opção mais interessante

Se a ideia é aproveitar melhor a laranja, consumir a fruta inteira fornece fibras, água e compostos bioativos que são parcialmente perdidos quando ela é transformada em suco.

O bagaço pode fazer parte da alimentação quando estiver bem higienizado e for agradável de consumir. Porém, não deve ser tratado como um método isolado para eliminar gordura abdominal.

A composição corporal depende de vários fatores, incluindo alimentação habitual, atividade física, sono, genética e balanço energético.

Assim, a ciência oferece uma pista interessante sobre o potencial das fibras e dos compostos presentes na laranja, mas ainda não permite transformar essa parte da fruta em uma solução milagrosa contra a gordura abdominal.

Rafaela Lucena é farmacêutica (CRF-RJ:13912) graduada pela UNIG. Une sua formação em saúde à paixão pela divulgação científica para traduzir estudos clínicos e farmacológicos para o cotidiano. Como responsável técnica pelo Fala Ciência, dedica-se a combater a desinformação com rigor técnico e embasamento científico de qualidade. Ver perfil no LinkedIn