Esse gene do DNA pode estar ajudando o câncer a se esconder 

Gene de reparo pode favorecer crescimento do câncer. (Foto: Berkay08 via Canva)
Gene de reparo pode favorecer crescimento do câncer. (Foto: Berkay08 via Canva)

Em um cenário onde a genética do câncer se torna cada vez mais complexa, uma nova descoberta chama atenção por inverter uma ideia clássica da biologia: nem sempre mais reparo significa mais proteção. Em alguns casos, o excesso pode gerar o efeito oposto.

Pesquisadores da Nature Communications (2026), liderados por Alexandra Nusawardhana, identificaram que o gene EXO1, responsável pelo reparo do DNA, pode entrar em hiperatividade e desencadear instabilidade genética, favorecendo a evolução de tumores em diferentes tipos de câncer.

Essa descoberta ajuda a entender melhor como certas células cancerígenas se tornam mais agressivas e, ao mesmo tempo, mais vulneráveis a tratamentos específicos.

O equilíbrio perdido no reparo do DNA

O DNA humano depende de sistemas de reparo altamente precisos para evitar mutações. O EXO1 faz parte desse sistema e atua como uma espécie de “tesoura molecular” durante a manutenção genética.

No entanto, quando há excesso dessa proteína, o processo deixa de ser controlado e passa a causar danos.

Entre os principais efeitos observados estão:

  • Degradação de regiões importantes do DNA
  • Aumento de quebras na dupla hélice
  • Instabilidade no genoma celular
  • Perda de material genético essencial

Em vez de proteger, o sistema passa a corroer estruturas fundamentais da célula.

Um comportamento que imita mutações BRCA

Um dos pontos mais intrigantes é que tumores com alta atividade de EXO1 apresentam comportamento muito semelhante ao observado em células com mutações nos genes BRCA, conhecidos por aumentar o risco de câncer de mama e ovário.

A diferença é crucial: nesse caso, não há mutação hereditária envolvida. O que ocorre é uma espécie de “imitação funcional”, em que o excesso de EXO1 compromete os mesmos mecanismos de proteção do DNA.

Esse padrão foi observado principalmente em:

  • Câncer de mama (subtipo basal)
  • Câncer de ovário
  • Melanoma
  • Tumores hepáticos e ginecológicos

Impacto direto na resposta aos tratamentos

Outro achado relevante é o comportamento desses tumores frente a medicamentos já usados na oncologia moderna.

Testes mostraram que células com alta expressão de EXO1 respondem de forma semelhante aos tumores com mutação BRCA quando expostas ao olaparibe, uma terapia alvo do reparo do DNA.

Além disso, também apresentaram sensibilidade à cisplatina, um quimioterápico amplamente utilizado.

Isso abre espaço para duas possibilidades importantes:

  • Uso de terapias mais direcionadas
  • Potencial redução de doses de quimioterapia, diminuindo efeitos colaterais

EXO1 como biomarcador da nova oncologia

A descoberta posiciona o EXO1 como um possível biomarcador clínico, capaz de orientar decisões terapêuticas mesmo em pacientes sem mutações BRCA.

Em outras palavras, o tratamento pode deixar de depender apenas do tipo de tumor e passar a considerar o perfil genético funcional da célula.

Essa abordagem se conecta ao avanço da medicina personalizada, em que cada tumor é analisado como um sistema único.

O estudo sugere uma mudança importante na compreensão do câncer: mecanismos de reparo do DNA não são apenas protetores, mas também podem se tornar pontos de vulnerabilidade quando desregulados.

Esse novo olhar pode ampliar o uso de terapias já existentes e acelerar o desenvolvimento de estratégias mais precisas contra diferentes tipos de câncer.

Rafaela Lucena é farmacêutica (CRF-RJ:13912) graduada pela UNIG. Une sua formação em saúde à paixão pela divulgação científica para traduzir estudos clínicos e farmacológicos para o cotidiano. Como responsável técnica pelo Fala Ciência, dedica-se a combater a desinformação com rigor técnico e embasamento científico de qualidade. Ver perfil no LinkedIn

Hábitos Inocentes Que Cortam o Efeito do Seu Remédio de Pressão A Luz do Sol Que Você Vê Hoje Nasceu na Era Glacial A Crise Silenciosa dos Mares