Cometa escondido em imagem revela um detalhe raro sobre sua superfície

Cometa 28P/Neujmin aparece em imagem do Telescópio Subaru. (Imagem: Observatório Astronômico Nacional do Havaí)

Uma imagem feita para estudar uma determinada região do céu acabou registrando algo que os pesquisadores não estavam procurando. Escondido entre os objetos observados pelo Telescópio Subaru, no Havaí, estava um visitante do Sistema Solar que passou praticamente despercebido.

O objeto era o cometa 28P/Neujmin.

A descoberta é especialmente interessante porque o cometa apareceu em uma condição rara. Ele estava tão distante do Sol que sua atividade havia diminuído drasticamente, deixando o núcleo exposto e permitindo que os astrônomos investigassem diretamente características de sua superfície.

Em outras palavras, uma espécie de “fotobomba cósmica” acabou se transformando em uma oportunidade científica.

Cometa sem característica que normalmente o denuncia

Imagem ilustrativa mostra o cometa 28P/Neujmin longe do Sol. (Imagem: Getty Images via Canva)

Quando pensamos em cometas, é comum imaginar um corpo brilhante acompanhado por uma longa cauda. Entretanto, essa aparência não está presente o tempo todo.

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À medida que um cometa se aproxima do Sol, o aquecimento provoca a liberação de gases e partículas de sua superfície. Esse material forma a chamada coma, uma espécie de envoltório que pode esconder justamente a região que os astrônomos mais querem estudar: o núcleo.

Por isso, observar um cometa quando ele está muito distante do Sol é particularmente valioso.

No caso do 28P/Neujmin, a distância ultrapassava 10 vezes a distância entre a Terra e o Sol. Nessa região, a atividade causada pelo aquecimento solar é extremamente reduzida, criando condições favoráveis para observar diretamente o núcleo.

O arquivo do Subaru guardava uma surpresa

O achado só foi possível porque os pesquisadores decidiram explorar dados que já estavam disponíveis publicamente.

O Telescópio Subaru, operado pelo Observatório Astronômico Nacional do Japão, possui um espelho principal de 8,2 metros e uma câmera com enorme campo de visão. A Hyper Suprime-Cam consegue observar uma área equivalente a aproximadamente nove luas cheias no céu.

Essa característica transforma grandes levantamentos astronômicos em verdadeiros arquivos de possíveis descobertas.

Mesmo quando uma observação é planejada para investigar galáxias ou outros objetos, pequenos corpos do Sistema Solar podem aparecer no mesmo enquadramento.

Foi exatamente isso que aconteceu.

A equipe encontrou o 28P/Neujmin nos dados do Subaru e percebeu que aquele registro permitia estudar o núcleo do cometa em uma condição pouco comum.

A superfície revelou uma pista surpreendente

Os pesquisadores analisaram a maneira como a luz solar era refletida pelo núcleo do 28P em diferentes condições de observação.

Os resultados mostraram que sua coloração é semelhante à observada em asteroides do tipo D, embora isso não signifique que o cometa seja simplesmente equivalente a um asteroide.

A diferença ficou mais evidente quando os cientistas analisaram um fenômeno conhecido como efeito de oposição.

Esse efeito ocorre quando um corpo é observado em uma geometria muito próxima da oposição, quando o Sol está aproximadamente atrás do observador em relação ao objeto. Nessa configuração, determinados materiais podem apresentar um aumento repentino de brilho.

No caso do 28P, as observações indicaram um aumento de brilho em ângulos extremamente pequenos. A análise sugere que a maneira como a luz se espalha pela superfície do cometa pode estar relacionada a uma microestrutura diferente daquela encontrada em asteroides semelhantes em cor.

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Uma “fotobomba” que ajuda a entender o Sistema Solar

O estudo foi publicado em 25 de agosto de 2026 na revista Publications of the Astronomical Society of Japan. O autor principal do trabalho é Takafumi Ootsubo.

A pesquisa não apenas descreve uma curiosa aparição em imagens de arquivo. Ela mostra como grandes bancos de dados astronômicos podem esconder informações valiosas sobre objetos que sequer eram o alvo original das observações.

Além disso, compreender a estrutura da superfície de cometas ajuda os pesquisadores a investigar como esses corpos se formaram e evoluíram ao longo da história do Sistema Solar.

Os autores destacam que novas observações, especialmente realizadas em diferentes comprimentos de onda e em uma mesma passagem do cometa, serão importantes para determinar com maior segurança quais processos físicos estão por trás do efeito de oposição observado.

Assim, aquilo que começou como uma aparição inesperada em uma fotografia acabou oferecendo uma rara oportunidade de observar um cometa praticamente sem seu tradicional disfarce de gás e poeira.

Leandro C. Sinis é biólogo formado pela UFRJ e divulgador científico. Com experiência em pesquisa acadêmica, é coautor de um estudo sobre neuroproteção publicado no Journal of Biological Chemistry (DOI: 10.1074/jbc.m117.807180). Sua missão no Fala Ciência é traduzir descobertas complexas em conhecimento acessível e seguro para todos. Ver perfil no LinkedIn | Ver Currículo Lattes