Cientistas mapeiam moléculas no espaço e encontram pistas sobre estrelas recém-nascidas

ALMA capta sinais de moléculas distantes e invisíveis aos olhos humanos (Imagem: Iztok Bončina/ESO )

O espaço entre as estrelas está longe de ser vazio. Em enormes nuvens de gás e poeira, moléculas se formam e se transformam enquanto novas estrelas começam a surgir. Como esses ambientes estão a centenas ou milhares de anos luz da Terra, os cientistas não conseguem coletar amostras diretamente. Em vez disso, utilizam a radiação emitida pelas moléculas para investigar esses verdadeiros laboratórios cósmicos.

Um dos principais alvos é a Nebulosa de Órion KL, localizada a aproximadamente 1.300 anos luz. A região abriga uma intensa atividade de formação estelar e permite estudar como condições físicas extremas influenciam a química do espaço.

Moléculas deixam uma impressão digital no espaço

As moléculas presentes nas nuvens interestelares emitem ondas de rádio em frequências específicas. Cada substância apresenta uma combinação característica desses sinais, funcionando como uma espécie de impressão digital.

Órion revela os ingredientes químicos presentes durante o nascimento estelar (Imagem: NASA, ESA, M. Robberto)

A intensidade da emissão também fornece informações sobre as condições locais. Com isso, os astrônomos conseguem estimar:

  • Quantidade de moléculas
  • Temperatura do gás
  • Distribuição das substâncias
  • Características das regiões de formação estelar

Assim, uma observação realizada da Terra pode revelar detalhes sobre processos que acontecem em locais extremamente distantes.

Gostou dessa notícia?

Siga o canal do Fala Ciência no WhatsApp para receber nossos conteúdos em primeira mão!

Entrar no Canal do WhatsApp

ALMA transforma o céu em um mapa químico

Para enxergar estruturas pequenas dentro das nebulosas, os pesquisadores utilizam conjuntos de antenas que trabalham em conjunto. O Atacama Large Millimeter/submillimeter Array (ALMA), instalado no norte do Chile, é um dos instrumentos mais importantes para esse tipo de estudo.

Sua alta resolução permite investigar regiões de Órion KL com dimensões inferiores a algumas centenas de unidades astronômicas. Entre as moléculas analisadas está o metanol, importante para compreender a evolução química do meio interestelar.

Novos dados confirmam padrões da nebulosa

Um estudo liderado por Olivia H. Wilkins, publicado na revista ACS Earth and Space Chemistry em 2026, comparou novos mapas produzidos com dados do ALMA com observações anteriores.

Os resultados apresentaram boa concordância entre os mapas, apesar de pequenas diferenças provocadas por melhorias no processamento dos dados. A análise também identificou regiões com maior concentração de determinadas formas de metanol.

Essas informações ajudam a investigar como temperatura, densidade e processos de formação estelar influenciam a composição química das nebulosas.

Ao mapear essas moléculas, os cientistas conseguem acompanhar como materiais simples presentes no espaço se transformam em componentes cada vez mais complexos antes de serem incorporados a estrelas, planetas e outros corpos celestes.

Leandro C. Sinis é biólogo formado pela UFRJ e divulgador científico. Com experiência em pesquisa acadêmica, é coautor de um estudo sobre neuroproteção publicado no Journal of Biological Chemistry (DOI: 10.1074/jbc.m117.807180). Sua missão no Fala Ciência é traduzir descobertas complexas em conhecimento acessível e seguro para todos. Ver perfil no LinkedIn | Ver Currículo Lattes