Um visitante vindo de fora do Sistema Solar acaba de revelar uma característica química que chama a atenção dos astrônomos. O cometa interestelar 3I/ATLAS apresenta uma quantidade excepcionalmente elevada de metanol, uma molécula que pode ajudar os cientistas a entender em que condições esse objeto se formou antes de chegar à nossa vizinhança cósmica.
A descoberta foi feita com o Atacama Large Millimeter/submillimeter Array (ALMA), no Chile. Ao analisar a composição da nuvem de gás e poeira ao redor do cometa, os pesquisadores encontraram uma proporção de metanol em relação ao cianeto de hidrogênio entre as mais altas já registradas em cometas.
Assinatura química de outro sistema planetário
O 3I/ATLAS é apenas o terceiro objeto interestelar confirmado a atravessar o Sistema Solar. Por isso, cada molécula detectada em sua coma funciona como uma espécie de pista sobre o ambiente onde ele nasceu.
Conforme o cometa se aproxima do Sol, o calor provoca a transformação de parte dos seus gelos em gás. Esse processo cria uma coma, uma região difusa ao redor do núcleo que pode ser estudada por telescópios capazes de identificar moléculas específicas.
Foi justamente nessa região que o ALMA detectou metanol (CH₃OH) e cianeto de hidrogênio (HCN).
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Entrar no Canal do WhatsAppAs observações revelaram uma diferença importante:
- O HCN apresentou um comportamento compatível principalmente com a liberação de material diretamente do núcleo.
- O metanol mostrou sinais de também estar sendo liberado por regiões mais afastadas do núcleo.
Essa diferença ajuda a explicar por que a composição do 3I/ATLAS é tão peculiar.
Pequenos pedaços de gelo podem estar liberando metanol
Os dados indicam que parte do metanol pode estar sendo liberada por grãos de gelo presentes na coma. Esses fragmentos funcionariam, em certo sentido, como pequenos reservatórios de material volátil.
À medida que recebem mais energia do Sol, o gelo se aquece e libera moléculas para o ambiente ao redor. O resultado é uma contribuição adicional de metanol que pode ser identificada nas observações do ALMA.
Esse processo não é totalmente desconhecido entre os cometas do nosso próprio Sistema Solar. Entretanto, observar esse comportamento em um objeto que se formou ao redor de outra estrela oferece uma oportunidade rara de comparar diferentes ambientes planetários.
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O metanol pode revelar como o cometa nasceu
A quantidade elevada da molécula é particularmente interessante porque sugere que o material congelado dentro do 3I/ATLAS pode ter sido formado sob condições químicas diferentes das encontradas na região onde nasceram muitos dos cometas conhecidos do Sistema Solar.
As medições anteriores já haviam mostrado outro aspecto incomum. Observações feitas pelo Telescópio Espacial James Webb indicaram uma coma dominada por dióxido de carbono quando o objeto ainda estava distante do Sol.
Agora, a presença abundante de metanol acrescenta mais uma característica peculiar ao visitante interestelar.
O estudo foi publicado em 6 de março de 2026 no The Astrophysical Journal Letters. A pesquisa, liderada por Nathan X. Roth, utilizou observações do ALMA realizadas entre agosto e outubro de 2025. Os pesquisadores encontraram razões de produção metanol/HCN de aproximadamente 124 e 79, valores extremamente elevados quando comparados com os observados em outros cometas.
O resultado não significa que o 3I/ATLAS seja necessariamente único entre todos os objetos interestelares. Porém, sua composição oferece uma oportunidade extraordinária para investigar como gelo, moléculas orgânicas e outros materiais podem se organizar durante a formação de pequenos corpos em sistemas planetários diferentes do nosso.
Quanto mais visitantes interestelares forem descobertos, mais será possível comparar suas assinaturas químicas. E o 3I/ATLAS já mostra que outros sistemas planetários podem produzir cometas com uma química bastante diferente daquela encontrada em nossa própria vizinhança cósmica.
