Asteroide que extinguiu os dinossauros era muito mais raro do que se imaginava

Estudo revela que o asteroide dos dinossauros pertencia a um raríssimo grupo de meteoritos. (Imagem: Fala Ciência)

66 milhões de anos, um único impacto transformou completamente a história da vida na Terra. O choque do objeto que formou a cratera de Chicxulub, na atual Península de Yucatán, desencadeou uma sequência de eventos ambientais capazes de eliminar cerca de 75% das espécies do planeta, incluindo todos os dinossauros não aviários. Agora, uma nova pesquisa acrescenta um detalhe surpreendente a esse episódio: o responsável pela colisão pertencia a um dos tipos mais raros de meteoritos conhecidos.

O estudo, publicado na revista Science Advances em 17 de julho de 2026, liderado por G. V. Makhatadze e colaboradores, revela que o impactador era um condrito carbonáceo do grupo Ornans (CO). Essa descoberta ajuda a reconstruir a origem do objeto e oferece novas pistas sobre as condições que culminaram em uma das maiores extinções em massa da história do planeta.

Uma rocha espacial fora do comum

Os condritos carbonáceos são meteoritos extremamente antigos, preservando características dos primeiros momentos da formação do Sistema Solar. Entretanto, o grupo Ornans (CO) representa apenas uma pequena fração dos meteoritos encontrados atualmente na Terra.

Para chegar a essa conclusão, os pesquisadores analisaram amostras do limite Cretáceo Paleógeno (K Pg), camada geológica que registra o momento da extinção dos dinossauros. O material foi coletado em cinco localidades diferentes e comparado com exemplares de 11 subgrupos de meteoritos carbonáceos.

O principal foco da investigação foi a composição isotópica do níquel, elemento químico presente em abundância nos meteoritos primitivos. Como cada grupo possui uma assinatura isotópica específica, foi possível identificar a origem do objeto responsável pelo impacto com alto grau de precisão.

A descoberta muda detalhes importantes do impacto

Durante muitos anos, pesquisadores consideraram que o enxofre presente no asteroide teria desempenhado papel decisivo nos efeitos climáticos globais após a colisão. No entanto, os novos resultados indicam que os meteoritos do grupo CO possuem quantidades relativamente baixas de elementos voláteis, incluindo enxofre, água, carbono e zinco.

Isso significa que o cenário da extinção não muda em sua essência, mas alguns mecanismos envolvidos passam a ser interpretados de forma diferente.

Em vez de atribuir grande parte dos efeitos ao enxofre transportado pelo próprio meteorito, os cientistas consideram mais provável que os materiais vaporizados das rochas terrestres atingidas pelo impacto tenham desempenhado papel ainda mais relevante na alteração do clima global.

Por que os dinossauros desapareceram?

O impacto continuou sendo um dos eventos mais devastadores já registrados na Terra. Entre suas principais consequências estavam:

  • Gigantescos incêndios florestais.
  • Tsunamis de proporções continentais.
  • Enormes quantidades de poeira lançadas na atmosfera.
  • Redução da luz solar por meses ou anos.
  • Queda acentuada das temperaturas globais.
  • Colapso das cadeias alimentares.

Esses fatores atuaram em conjunto e provocaram uma crise ambiental sem precedentes, encerrando o domínio dos dinossauros e abrindo caminho para a expansão dos mamíferos, que mais tarde dariam origem aos seres humanos.

Uma peça importante para entender a história da Terra

Embora a descoberta não altere a explicação geral sobre a extinção dos dinossauros, ela torna muito mais precisa a identificação do objeto que colidiu com o planeta. Saber que o impacto foi causado por um meteorito carbonáceo Ornans, extremamente incomum, ajuda os pesquisadores a compreender melhor como diferentes populações de asteroides circulam pelo Sistema Solar e quais delas eventualmente podem cruzar a órbita terrestre.

Além disso, o estudo demonstra como técnicas modernas de análise isotópica conseguem revelar detalhes escondidos por 66 milhões de anos, permitindo reconstruir com impressionante precisão um dos acontecimentos mais marcantes da evolução da vida. Cada nova evidência amplia nosso entendimento sobre a dinâmica do Sistema Solar e sobre os processos que moldaram a biodiversidade que conhecemos atualmente.

Leandro C. Sinis é biólogo formado pela UFRJ e divulgador científico. Com experiência em pesquisa acadêmica, é coautor de um estudo sobre neuroproteção publicado no Journal of Biological Chemistry (DOI: 10.1074/jbc.m117.807180). Sua missão no Fala Ciência é traduzir descobertas complexas em conhecimento acessível e seguro para todos. Ver perfil no LinkedIn | Ver Currículo Lattes