Animal marinho contém composto que rejuvenesceu cérebro e pelos de ratos idosos 

Ascídias contêm plasmalogênios investigados por seus efeitos no cérebro. (Imagem: Georgina Jones, CC BY-SA 4.0.)

Um animal marinho pouco conhecido fora da culinária asiática chamou a atenção dos cientistas por causa de uma substância ligada às membranas das células. Em um experimento com camundongos idosos, compostos chamados plasmalogênios foram associados a uma melhora da memória, aumento das conexões entre neurônios e até mudanças visíveis na aparência dos pelos.

O resultado é intrigante porque os plasmalogênios já fazem parte naturalmente do organismo humano. Essas moléculas pertencem a uma classe de lipídios encontrados em grande quantidade no cérebro, coração e células do sistema imunológico. Além disso, seus níveis podem diminuir com o envelhecimento.

A pesquisa, porém, não significa que comer ascídias ou tomar suplementos de plasmalogênios seja capaz de reverter o envelhecimento em pessoas.

Um animal marinho entrou no centro da descoberta

As ascídias são animais marinhos conhecidos em países asiáticos como meongge, na Coreia do Sul, e hoya, no Japão. Elas são consumidas como alimento e apresentam concentrações de determinados plasmalogênios.

A partir dessa característica, os pesquisadores investigaram se a reposição dessas moléculas poderia interferir em alterações associadas ao envelhecimento cerebral.

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Para isso, camundongos fêmeas com 16 meses de idade receberam plasmalogênios por via oral durante dois meses. Depois, os animais foram submetidos a diferentes análises comportamentais, moleculares e microscópicas.

Os resultados chamaram atenção principalmente pela função cerebral.

Memória melhorou e conexões apareceram no cérebro

Estudo mostra que plasmalogênios preservam sinapses e memória. (Imagem: Reprodução / Reddit)

Um dos testes utilizados foi o labirinto aquático de Morris, no qual os animais precisam aprender a localizar uma plataforma escondida em uma piscina.

Após o período de treinamento, os camundongos idosos que receberam plasmalogênios apresentaram desempenho cognitivo superior ao dos animais idosos que não receberam o composto.

Mas a parte mais interessante apareceu quando os pesquisadores observaram o cérebro.

As análises indicaram menor perda de sinapses no hipocampo, região essencial para processos relacionados à aprendizagem e à memória. Além disso, os animais tratados apresentaram sinais de maior formação de conexões neurais e maior plasticidade sináptica.

As sinapses funcionam como pontos de comunicação entre os neurônios. Portanto, preservar essas estruturas é importante para manter a transmissão eficiente das informações no cérebro.

Menos inflamação e uma mudança surpreendente nos pelos

O estudo também encontrou uma alteração relacionada à microglia, conjunto de células que atua na defesa e na manutenção do sistema nervoso central.

Nos camundongos idosos tratados, houve menor ativação dessas células e redução de marcadores associados à neuroinflamação. Esse mecanismo pode ter contribuído para a preservação das conexões neurais observada no experimento.

E havia ainda uma mudança visual curiosa.

Os animais que receberam plasmalogênios desenvolveram pelos mais espessos, brilhantes e escuros em comparação com os camundongos idosos do grupo controle. O achado não significa que o composto seja um tratamento para cabelos grisalhos em seres humanos, mas mostra que seus efeitos biológicos foram além dos testes de memória.

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A descoberta ainda está longe de virar tratamento

O estudo foi publicado na revista científica Frontiers in Molecular Biosciences, em 22 de fevereiro de 2022, pelo pesquisador principal Jinxin Gu e colaboradores.

Apesar dos resultados, existe uma diferença enorme entre observar um efeito em camundongos e demonstrar benefício em seres humanos.

Por enquanto, a pesquisa mostra que os plasmalogênios são uma pista interessante para investigar envelhecimento cerebral, sinapses e neuroinflamação. Ainda são necessários estudos clínicos para saber se a suplementação produz efeitos semelhantes em pessoas, qual seria uma dose adequada e, principalmente, se o uso prolongado é seguro.

A ascídia, portanto, não é uma fonte comprovada de rejuvenescimento humano. Mas seus compostos ajudaram os cientistas a encontrar uma possível peça de um quebra-cabeça que envolve memória, envelhecimento e funcionamento do cérebro.

Rafaela Lucena é farmacêutica (CRF-RJ:13912) graduada pela UNIG. Une sua formação em saúde à paixão pela divulgação científica para traduzir estudos clínicos e farmacológicos para o cotidiano. Como responsável técnica pelo Fala Ciência, dedica-se a combater a desinformação com rigor técnico e embasamento científico de qualidade. Ver perfil no LinkedIn