Ozempic chama atenção por possível efeito inesperado no transtorno bipolar

Medicamento para diabetes e obesidade ganha nova pista científica. (Imagem: Fala Ciência)

Medicamentos conhecidos principalmente pelo tratamento do diabetes tipo 2 e da obesidade estão chamando atenção por outro motivo. Uma grande análise realizada na Suécia encontrou uma associação entre o uso de semaglutida, princípio ativo de medicamentos como Ozempic e Wegovy, e uma menor ocorrência de hospitalização psiquiátrica entre pessoas com transtorno bipolar.

Os dados chamam atenção, porém não devem ser interpretados como uma confirmação de efeito terapêutico.. A pesquisa não demonstrou que a semaglutida trata o transtorno bipolar, e os próprios autores apontam a necessidade de ensaios clínicos para confirmar essa possibilidade.

Uma diferença apareceu quando os pesquisadores acompanharam os mesmos pacientes

Estudo aponta menor risco psiquiátrico com semaglutida. (Imagem: Fala Ciência)

A pesquisa utilizou registros nacionais suecos referentes ao período de 2009 a 2024. Ao todo, foram analisadas 14.694 pessoas com diagnóstico de transtorno bipolar, das quais 5.200 haviam utilizado medicamentos agonistas do receptor de GLP-1.

Um aspecto importante do trabalho foi a comparação dentro dos próprios indivíduos. Dessa maneira, os pesquisadores puderam observar períodos em que uma mesma pessoa utilizava ou não determinado medicamento, reduzindo parte das diferenças que poderiam confundir uma comparação entre grupos completamente distintos.

Entre os resultados, a semaglutida esteve associada a um risco 21% menor de hospitalização psiquiátrica em comparação com períodos sem uso de agonistas de GLP-1.

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Além disso, houve uma associação com 17% menos risco de recaída do transtorno bipolar.

Por outro lado, esse padrão não apareceu da mesma maneira com todos os medicamentos da classe. Liraglutida e dulaglutida não apresentaram associação significativa com menor risco de hospitalização psiquiátrica.

Por que um medicamento metabólico poderia ter relação com o cérebro?

Os receptores relacionados ao GLP-1 não estão envolvidos apenas no controle da glicose e do apetite. A sinalização desse sistema também ocorre em regiões do organismo relacionadas ao funcionamento cerebral.

Por isso, existe interesse científico em investigar se medicamentos que atuam nessa via poderiam influenciar processos associados ao sistema nervoso.

Entre as hipóteses estudadas estão alterações relacionadas à inflamação, metabolismo celular e funcionamento neuronal. No entanto, neste estudo específico, esses mecanismos não foram demonstrados diretamente como a causa da menor hospitalização.

Essa distinção é fundamental. Uma associação estatística não significa que a semaglutida tenha causado a melhora observada.

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O estudo ainda não transforma Ozempic em tratamento psiquiátrico

A pesquisa foi publicada na Acta Psychiatrica Scandinavica em 21 de junho de 2026. O trabalho, liderado por Heidi Taipale, utilizou dados de registros nacionais e empregou métodos estatísticos para comparar os períodos de exposição aos medicamentos.

Os resultados são relevantes para novas pesquisas, mas apresentam uma limitação importante: não se trata de um ensaio clínico randomizado.

Por isso, ainda não é possível recomendar semaglutida como tratamento do transtorno bipolar com base nesse estudo. Também não significa que uma pessoa com transtorno bipolar deva iniciar, interromper ou modificar o uso do medicamento por conta própria.

A próxima etapa será testar essa hipótese em ensaios clínicos controlados, capazes de avaliar diretamente se a semaglutida produz algum benefício psiquiátrico e quais pacientes poderiam eventualmente se beneficiar.

Rafaela Lucena é farmacêutica (CRF-RJ:13912) graduada pela UNIG. Une sua formação em saúde à paixão pela divulgação científica para traduzir estudos clínicos e farmacológicos para o cotidiano. Como responsável técnica pelo Fala Ciência, dedica-se a combater a desinformação com rigor técnico e embasamento científico de qualidade. Ver perfil no LinkedIn