A Terra esconde um sistema natural contra o aquecimento e cientistas descobriram como funciona 

Cientistas revelam mecanismo natural que ajudou a Terra a regular seu clima por milhões de anos. (Imagem: Fala Ciência via Gemini)

A Terra permaneceu habitável durante dezenas de milhões de anos apesar de intensas mudanças climáticas, variações na atividade geológica e transformações profundas nos oceanos. Mas como o planeta conseguiu evitar extremos capazes de torná lo inóspito? Um novo estudo pode finalmente ter encontrado uma resposta convincente.

Pesquisadores identificaram um mecanismo natural de autorregulação climática, baseado na interação entre o nível do mar, o fosfato, a vida marinha e o ciclo do carbono. A descoberta ajuda a explicar como o planeta foi capaz de controlar naturalmente a quantidade de dióxido de carbono (CO₂) na atmosfera durante os últimos 60 milhões de anos.

Os resultados foram publicados na revista Proceedings of the National Academy of Sciences (PNAS), em estudo liderado por Rosalind E. M. Rickaby, publicado em 2026, oferecendo uma nova perspectiva sobre a evolução climática da Terra.

O oceano escondia uma peça essencial do quebra cabeça climático

Os cientistas já sabiam que o CO₂ atmosférico diminuiu gradualmente ao longo da história recente da Terra, contribuindo para um clima mais frio. Entretanto, permanecia a dúvida sobre qual processo retirava tanto carbono da atmosfera.

A nova pesquisa aponta que o protagonista dessa história é o fosfato, um nutriente indispensável para o crescimento de organismos marinhos. O funcionamento do sistema é surpreendentemente elegante:

  • Níveis elevados do mar aprisionavam fosfato nas plataformas continentais.
  • Com menos fosfato disponível, a produtividade marinha diminuía.
  • Menos matéria orgânica chegava ao fundo do oceano.
  • Consequentemente, menos carbono era enterrado nos sedimentos.
  • O resultado era uma maior concentração de CO₂ na atmosfera, favorecendo um clima mais quente.

Por outro lado, quando o nível do mar baixava, o processo ocorria na direção oposta.

Quando o mar recuava, o planeta começava a esfriar

A redução do nível dos oceanos permitia que maiores quantidades de fosfato alcançassem o oceano aberto. Esse nutriente estimulava o crescimento do fitoplâncton e de outros organismos marinhos.

Após sua morte, parte dessa matéria orgânica afundava até o fundo do mar, onde acabava sendo soterrada por sedimentos durante milhões de anos. Esse processo promovia um importante efeito climático:

  • Mais carbono ficava preso no fundo do oceano.
  • Menos CO₂ permanecia na atmosfera.
  • O efeito estufa diminuía.
  • O planeta passava por um resfriamento gradual.

Além disso, regiões oceânicas pobres em oxigênio favoreciam ainda mais a liberação de fosfato dos sedimentos, criando um eficiente ciclo de retroalimentação natural.

Existe um nível ideal do mar para capturar carbono

Outro resultado curioso foi a identificação de um verdadeiro ponto de equilíbrio climático. Os pesquisadores verificaram que o soterramento de carbono atingia sua máxima eficiência quando o nível do mar permanecia entre 10 e 40 metros acima do atual.

Nessas condições, áreas costeiras ricas em matéria orgânica coincidiam com águas pobres em oxigênio, criando o ambiente perfeito para aprisionar enormes quantidades de carbono por longos períodos geológicos.

Esse mecanismo atuou como um verdadeiro termostato natural, reduzindo lentamente o CO₂ atmosférico sempre que o sistema climático caminhava para temperaturas mais elevadas.

Uma descoberta que ajuda a compreender o futuro do clima

Embora esse mecanismo opere em escalas de milhões de anos, a pesquisa amplia significativamente o conhecimento sobre o ciclo global do carbono, um dos pilares da climatologia moderna.

Os cientistas utilizaram registros geoquímicos, análises de fósforo em sedimentos e uma técnica baseada na razão iodo/cálcio preservada em fósseis microscópicos para reconstruir os níveis de oxigênio dos oceanos antigos. Esses dados confirmaram que o comportamento do fosfato esteve intimamente ligado às oscilações do clima terrestre durante grande parte do Cenozoico.

Leandro C. Sinis é biólogo formado pela UFRJ e divulgador científico. Com experiência em pesquisa acadêmica, é coautor de um estudo sobre neuroproteção publicado no Journal of Biological Chemistry (DOI: 10.1074/jbc.m117.807180). Sua missão no Fala Ciência é traduzir descobertas complexas em conhecimento acessível e seguro para todos. Ver perfil no LinkedIn | Ver Currículo Lattes