Ao longo dos últimos 12 mil anos, a Terra viveu um período relativamente quente conhecido como Holoceno. Mesmo assim, esse intervalo foi interrompido por diversas fases de resfriamento que duraram décadas ou até séculos, permitindo o avanço de geleiras em diferentes regiões do planeta. Durante muito tempo, a origem desses episódios permaneceu sem uma explicação definitiva.
Agora, um novo estudo aponta um provável responsável: grandes erupções vulcânicas, especialmente aquelas ocorridas no Círculo de Fogo do Pacífico. A pesquisa foi publicada em 2026 na revista Nature Communications, tendo Alice R. Paine como autora principal, e apresenta evidências de que essas explosões alteraram o equilíbrio climático da Terra por muito mais tempo do que se imaginava.
Um quebra cabeça climático começa a ganhar resposta
Os cientistas reuniram registros de 51 grandes erupções vulcânicas ocorridas durante o Holoceno. Para reconstruir essa cronologia, combinaram informações obtidas em:
- Núcleos de gelo da Antártica e do Ártico.
- Depósitos de cinzas vulcânicas datados por materiais orgânicos.
- Rochas vulcânicas analisadas com técnicas modernas de datação.
Em seguida, esses dados foram comparados com registros do avanço de geleiras preservados em morenas, grandes depósitos de rochas deixados pelo movimento do gelo.
O resultado chamou atenção: mais de 80% dos períodos de expansão glacial coincidiram com pelo menos uma grande erupção vulcânica, indicando uma ligação consistente entre os dois fenômenos.
Como uma erupção pode resfriar o planeta por tanto tempo?
Quando um vulcão extremamente explosivo entra em erupção, enormes quantidades de compostos de enxofre podem alcançar as camadas mais altas da atmosfera.
Essas partículas refletem parte da radiação solar, reduzindo a energia que chega à superfície terrestre e provocando um resfriamento inicial.
Entretanto, segundo o estudo, esse é apenas o primeiro passo de uma sequência muito mais complexa.
O resfriamento favorece a expansão do gelo marinho no Ártico, diminuindo a quantidade de calor liberada pelos oceanos para a atmosfera. Esse processo modifica a circulação oceânica, altera sistemas atmosféricos tropicais e desloca zonas de chuva para latitudes mais ao sul.
Essas mudanças passam a alimentar umas às outras, criando um ciclo de retroalimentação capaz de manter temperaturas mais baixas durante muitas décadas ou até séculos, mesmo depois que as partículas vulcânicas já desapareceram da atmosfera.
Nem toda erupção produz esse efeito
Os pesquisadores destacam que apenas determinadas erupções apresentam potencial para desencadear esse mecanismo climático.
Para isso, alguns fatores precisam ocorrer simultaneamente:
- Quantidade adequada de enxofre lançada na atmosfera.
- Altitude suficiente para que as partículas permaneçam suspensas.
- Magnitude intermediária da erupção, evitando que a coluna eruptiva colapse rapidamente.
Essas condições ajudam a explicar por que eventos históricos, como a erupção do Monte Tambora em 1815, causaram um forte resfriamento global conhecido como Ano Sem Verão, mas com duração limitada a aproximadamente um ano.
O que essa descoberta significa para o clima atual?
Os autores destacam que os eventos analisados ocorreram em um planeta cujo clima ainda não havia sido profundamente alterado pelas atividades humanas.
Hoje, o sistema climático encontra-se em uma condição muito diferente devido ao aumento das concentrações de gases de efeito estufa. Por isso, ainda não é possível prever com segurança como uma futura grande erupção interagiria com o atual cenário de aquecimento global.
