O degelo do permafrost no Ártico é considerado uma das maiores preocupações relacionadas às mudanças climáticas. À medida que o solo permanentemente congelado descongela, enormes quantidades de carbono orgânico podem ser transportadas para rios e mares, levantando o temor de que esse material seja rapidamente convertido em gases de efeito estufa, acelerando ainda mais o aquecimento global. No entanto, uma nova pesquisa traz uma perspectiva mais otimista. Os resultados indicam que boa parte desse carbono permanece aprisionada no fundo do Oceano Ártico, reduzindo sua participação imediata no ciclo atmosférico do carbono. O estudo foi publicado na revista Nature Geoscience, com autoria principal de Manuel Ruben, em 2026.
O destino do carbono após o degelo surpreendeu os cientistas
Os ecossistemas de permafrost armazenam aproximadamente 1.300 gigatoneladas de carbono orgânico, enquanto sedimentos marinhos e deltas de rios acumulam outras centenas de gigatoneladas. Com o aumento das temperaturas no Ártico, esse enorme reservatório congelado começa a liberar parte desse material para o ambiente.
Até então, uma questão permanecia sem resposta: quanto desse carbono realmente retorna à atmosfera e quanto permanece armazenado no oceano?
Para compreender o destino desse carbono, os cientistas extraíram amostras de sedimentos do fundo marinho em diferentes pontos da costa da ilha de Herschel, no Canadá. Essas camadas funcionam como um arquivo natural, registrando cerca de cinco décadas de deposição de material transportado do continente e permitindo acompanhar como o carbono foi armazenado e transformado ao longo do tempo.
A análise revelou um resultado inesperado. Embora grandes volumes de carbono do permafrost alcancem o mar todos os anos, apenas uma pequena fração participa ativamente da produção de gases de efeito estufa. A maior parte permanece acumulada no fundo oceânico.
Microrganismos preferem carbono mais recente
Outro aspecto curioso do estudo envolve os microrganismos que vivem nos sedimentos marinhos. Essas bactérias desempenham papel essencial na decomposição da matéria orgânica e na produção de dióxido de carbono.
Utilizando análises de isótopos de carbono, especialmente carbono 13 e carbono 14, os pesquisadores conseguiram identificar quais tipos de matéria orgânica eram consumidos pelos microrganismos.
Os resultados mostraram que esses organismos apresentam uma clara preferência por carbono orgânico recente, proveniente principalmente de restos de algas marinhas, em vez do carbono muito antigo armazenado no permafrost.
Essa descoberta ajuda a explicar por que o carbono terrestre permanece relativamente preservado nos sedimentos costeiros, reduzindo sua conversão em gases que poderiam alcançar a atmosfera.
Apenas uma pequena parcela retorna ao ciclo climático
Os dados indicam que aproximadamente 10% do carbono orgânico presente nos sedimentos é transformado em gases pelos microrganismos. O restante permanece retido no fundo do mar durante longos períodos.
Esse armazenamento natural pode representar um importante mecanismo de retenção de carbono, contribuindo para limitar parte dos impactos climáticos associados ao degelo do Ártico.
Entretanto, os pesquisadores alertam que isso não elimina os riscos das mudanças climáticas. Parte do carbono pode ser degradada antes mesmo de alcançar os sedimentos marinhos, além de o aumento contínuo das temperaturas poder modificar esse equilíbrio nas próximas décadas.
Descoberta melhora os modelos climáticos do futuro
Além da importância para o entendimento do ciclo global do carbono, o estudo também fornece informações valiosas para aperfeiçoar os modelos climáticos utilizados para prever os efeitos do aquecimento global.
Os pesquisadores destacam que compreender quanto carbono permanece armazenado e quanto retorna à atmosfera é essencial para estimar com maior precisão a evolução do clima terrestre.
Outro aspecto relevante envolve os ecossistemas costeiros do Ártico. O transporte de sedimentos influencia a transparência da água, altera a disponibilidade de luz para as algas e pode afetar toda a cadeia alimentar marinha, incluindo peixes, crustáceos e mamíferos marinhos.
