A própria Via Láctea pode estar imitando sinais de matéria escura, revela estudo 

Representação de estrelas que formam longas correntes ao redor da nossa galáxia. (Imagem: Fala Ciência)

A descoberta de matéria escura pode estar escondida em estruturas que, até agora, os astrônomos consideravam pistas relativamente diretas de sua presença. Novas simulações da Via Láctea mostram que a própria gravidade da galáxia pode produzir deformações em correntes estelares, criando sinais semelhantes aos esperados da ação de pequenos aglomerados de matéria escura.

O resultado não elimina a possibilidade de esses aglomerados existirem. Na verdade, ele torna a busca mais sofisticada, ao indicar que os pesquisadores precisam primeiro separar os efeitos produzidos pela própria galáxia daqueles que poderiam ter origem na matéria invisível.

As “cicatrizes” que percorrem a Via Láctea

As correntes estelares são longas estruturas formadas por estrelas que foram arrancadas de aglomerados ou pequenas galáxias pela ação gravitacional de uma galáxia maior. Com o tempo, esses objetos ficam esticados ao longo de suas órbitas, formando verdadeiros rios de estrelas.

Por serem extremamente sensíveis à gravidade, essas correntes são consideradas importantes ferramentas para investigar a estrutura da Via Láctea.

Algumas, entretanto, apresentam lacunas, curvas, ondulações, ramificações e concentrações de estrelas. Uma das hipóteses é que essas deformações sejam causadas pela passagem das correntes próximas a pequenos aglomerados de matéria escura, conhecidos como subhalos.

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O novo estudo mostra que a história pode ser mais complicada.

A própria galáxia pode criar os sinais

Simulação revela a diversidade das correntes estelares na galáxia. (Imagem: Arpit Arora via The Astrophysical Journal)

Para descobrir quanto da irregularidade poderia surgir sem a participação de subhalos de matéria escura, os pesquisadores construíram quatro galáxias virtuais com dimensões semelhantes às da Via Láctea.

Em seguida, distribuíram aproximadamente 15 mil correntes estelares nesses ambientes e acompanharam sua evolução durante uma simulação equivalente a 5 bilhões de anos.

O resultado chamou atenção: quase todas as correntes desenvolveram algum tipo de alteração estrutural mesmo sem a presença de pequenos aglomerados de matéria escura no modelo.

A explicação está na própria distribuição de massa da galáxia. As estrelas não estão espalhadas de maneira perfeitamente uniforme. Existem regiões mais densas e outras menos povoadas, produzindo um campo gravitacional irregular.

Quando uma corrente estelar atravessa essas regiões, sua trajetória pode ser modificada. Algumas ficam onduladas, outras ganham lacunas ou ramificações e algumas chegam a ser completamente desestruturadas.

Entre as cerca de 15 mil correntes simuladas, apenas 70 permaneceram sem características estruturais marcantes depois de 5 bilhões de anos.

Um novo filtro para procurar matéria escura

O resultado não significa que as correntes estelares deixaram de ser úteis na investigação da matéria escura. O que muda é a forma de interpretar suas características.

Se a própria galáxia consegue produzir deformações semelhantes às atribuídas aos subhalos, os astrônomos precisam primeiro estabelecer qual seria o comportamento esperado de uma corrente apenas sob a influência da galáxia hospedeira.

Somente depois disso será possível procurar alterações que não possam ser explicadas pelo ambiente gravitacional conhecido.

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O estudo que revelou um detalhe inesperado nas correntes estelares 

A pesquisa foi liderada por Arpit Arora e publicada em 2026 no The Astrophysical Journal, com o título No Stream Left Unscathed: The Imprint of a Host Galaxy. O trabalho apresenta as simulações que demonstraram como a própria estrutura galáctica pode gerar uma grande variedade de irregularidades nas correntes estelares.

Os próximos modelos deverão incluir novamente subhalos de matéria escura, permitindo comparar os efeitos provocados por eles com aqueles produzidos naturalmente pela galáxia.

Além disso, o Observatório Vera C. Rubin deverá ampliar significativamente o catálogo de correntes estelares conhecidas na Via Láctea. Com mais exemplos disponíveis, os astrônomos poderão identificar padrões e procurar características que realmente sejam compatíveis com a influência da matéria escura.

A pesquisa, portanto, não encontrou a matéria escura. Ela fez algo igualmente importante: mostrou quais sinais podem enganar os astrônomos e precisam ser retirados do caminho para que uma verdadeira pista seja reconhecida.

Leandro C. Sinis é biólogo formado pela UFRJ e divulgador científico. Com experiência em pesquisa acadêmica, é coautor de um estudo sobre neuroproteção publicado no Journal of Biological Chemistry (DOI: 10.1074/jbc.m117.807180). Sua missão no Fala Ciência é traduzir descobertas complexas em conhecimento acessível e seguro para todos. Ver perfil no LinkedIn | Ver Currículo Lattes