Nas vastas estepes da Mongólia, sobreviver sempre significou saber interpretar o ambiente. Para comunidades de pastores nômades, o comportamento do vento, a formação das nuvens e até sinais ao redor do sol fazem parte de um conhecimento transmitido entre gerações. Agora, porém, a própria paisagem está mudando.
O problema não é provocado por um único fator. Secas mais difíceis, eventos climáticos extremos, pressão sobre as pastagens, redução de água e crescimento dos rebanhos estão aumentando a vulnerabilidade de um modo de vida que depende diretamente da produtividade dos campos.
Um dos episódios mais devastadores é o dzud, fenômeno característico da Mongólia no qual condições severas de inverno, muitas vezes precedidas por seca, dificultam o acesso dos animais ao alimento. Para os pastores, isso pode significar a perda de grande parte dos rebanhos em poucos meses.
A estratégia simples que pode ajudar a salvar as pastagens
A dimensão do desafio aparece no próprio tamanho dos rebanhos. A Mongólia tinha aproximadamente 58 milhões de animais de criação em 2025, número muito superior à população humana do país.
Entretanto, quantidade não significa necessariamente segurança. Em determinadas regiões, uma concentração elevada de animais pode aumentar a pressão sobre a vegetação, principalmente quando combinada com períodos prolongados de seca.
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Entrar no Canal do WhatsAppPor isso, algumas famílias estão adotando uma estratégia simples, mas ecologicamente importante: deixar determinadas áreas descansarem.
A lógica é permitir que a vegetação se recupere antes que o pastoreio seja retomado. Além disso, produtores vêm buscando animais mais produtivos e formas de aproveitar melhor carne, leite, lã e outros produtos, reduzindo a necessidade de aumentar continuamente o tamanho dos rebanhos.
A ciência mostra que o problema é mais complexo
A degradação das pastagens mongóis não pode ser explicada apenas pelo número de animais. Um estudo conduzido por Chantsallkham Jamsranjav, publicado na revista Ecological Applications em 6 de março de 2018, avaliou 143 locais distribuídos por diferentes zonas ecológicas do país.
Os pesquisadores analisaram indicadores como cobertura vegetal, biomassa, riqueza de espécies, qualidade da forragem e características do solo. Os resultados mostraram que os efeitos do pastoreio variavam bastante entre as regiões e que a degradação extremamente severa e irreversível era relativamente rara.
Isso não significa que as pastagens estejam fora de risco. Pelo contrário. O trabalho aponta a necessidade de monitoramento, restauração localizada e manejo adaptativo, especialmente em áreas submetidas a maior pressão.
Outro estudo, publicado por María Fernandez-Gimenez e colaboradores no Journal of Arid Environments em abril de 2015, acompanhou áreas durante duas décadas e encontrou mudanças na composição da vegetação associadas à combinação entre aumento das temperaturas e pressão do pastoreio em determinadas regiões.
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O futuro pode depender de saber quando parar
Para os pastores nômades, preservar a estepe não significa abandonar a criação de animais. A questão é encontrar um equilíbrio entre produção e capacidade de recuperação do ecossistema.
A própria mobilidade tradicional pode fazer parte dessa solução. A alternância entre áreas de pastoreio permite distribuir a pressão sobre a vegetação e acompanhar as condições climáticas de cada estação.
Além disso, novas tecnologias já estão sendo incorporadas à rotina de algumas famílias. Painéis solares, por exemplo, ajudam a produzir eletricidade, enquanto resíduos dos próprios animais podem ser utilizados como combustível durante o inverno.
Esse encontro entre conhecimento tradicional e tecnologia pode ser decisivo para a continuidade do nomadismo.
A crise ambiental também tem uma dimensão cultural. Se as pastagens perderem sua capacidade de sustentar os rebanhos, não será apenas um ecossistema que estará mudando, mas também uma tradição que atravessou séculos.
Na Mongólia, portanto, proteger a terra significa garantir que as próximas gerações ainda tenham condições de percorrer as estepes, criar seus animais e manter vivo um dos modos de vida mais antigos das regiões de clima extremo.
