Dupla de anãs brancas completa órbita em 6 minutos e intriga astrônomos

Ilustração mostra duas anãs brancas em órbita muito próxima. (Imagem: Centro Interuniversitário de Astronomia e Astrofísica.)

Duas estrelas mortas estão presas em uma dança cósmica tão veloz que conseguem completar uma volta ao redor uma da outra em apenas seis minutos. O sistema, localizado a uma distância ainda desconhecida com precisão, chamou a atenção dos astrônomos por apresentar pulsos intensos de raios X e uma órbita que parece estar encolhendo rapidamente.

A dupla é formada por anãs brancas, núcleos extremamente densos deixados para trás depois que estrelas semelhantes ao Sol chegam ao fim de sua evolução. Nesse caso, porém, elas estão tão próximas que a interação entre as duas produz condições bastante incomuns.

Uma volta completa antes de muitos ponteiros avançarem

Órbita de anãs brancas que emitem raios X a cada 374 segundos. (Imagem: Fala Ciência)

O sistema conhecido como eRASSU J0608 apresenta uma emissão de raios X que se repete aproximadamente a cada 374 segundos, o equivalente a pouco mais de seis minutos.

Inicialmente, um sinal periódico como esse poderia ter diferentes explicações. Estrelas de nêutrons, por exemplo, podem produzir pulsos devido à própria rotação, enquanto sistemas binários também podem apresentar variações regulares de brilho quando uma estrela passa diante da outra.

As observações realizadas pelo NICER e pelo observatório espacial Einstein Probe, entretanto, apontaram para uma situação diferente: os pulsos estão associados a duas anãs brancas em uma órbita extremamente compacta.

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A proximidade entre elas também explica o comportamento dos raios X. Uma das estrelas libera material que é capturado diretamente pela companheira. Esse material fica superaquecido durante o processo e produz a radiação observada pelos telescópios.

O movimento das estrelas revelou algo ainda mais interessante

A velocidade da órbita não é a única característica incomum. Ao comparar observações realizadas em diferentes momentos, os pesquisadores perceberam que o período orbital do sistema está diminuindo.

Isso significa que as duas estrelas estão perdendo energia e se aproximando gradualmente.

O comportamento chamou atenção porque uma das formas pelas quais um sistema binário pode perder energia é por meio da emissão de ondas gravitacionais, perturbações que se propagam pelo espaço-tempo.

Foi justamente esse fenômeno que ganhou destaque no estudo publicado em 2026 no The Astrophysical Journal Letters. O trabalho, liderado por Rahul Sharma, analisou dados do NICER, Einstein Probe e observações anteriores obtidas pelo XMM-Newton para acompanhar a evolução do sistema durante mais de três anos.

Os resultados indicaram que o rápido decaimento orbital do eRASSU J0608 é compatível com a perda de energia causada por ondas gravitacionais. A chamada massa de chirp do sistema foi estimada em aproximadamente 0,43 massa solar, um parâmetro importante para caracterizar fontes desse tipo.

Uma possível fonte para a próxima geração de telescópios

Apesar do resultado promissor, existe uma informação essencial que ainda falta: a distância exata até o sistema.

Quanto mais distante estiver uma fonte de ondas gravitacionais, mais fraco será o sinal que chega até os instrumentos. Por isso, saber onde o eRASSU J0608 está localizado em relação à Terra será fundamental para determinar se ele poderá ser observado diretamente no futuro.

Os pesquisadores consideram a possibilidade de existir uma terceira estrela no sistema. Caso seja encontrada e suas propriedades permitam estabelecer a distância, será possível avaliar melhor o potencial do eRASSU J0608 como fonte gravitacional.

Se estiver suficientemente próximo, o sistema poderá se tornar um alvo interessante para o LISA, futuro observatório espacial projetado para detectar ondas gravitacionais em frequências que não são acessíveis aos principais detectores terrestres atuais.

Além de permitir estudar a evolução de sistemas formados por anãs brancas, uma fonte tão estável e intensa poderia ajudar os cientistas a calibrar observações de ondas gravitacionais feitas no espaço.

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Uma dança estelar que pode durar milhões de anos

O eRASSU J0608 oferece uma oportunidade rara para observar os efeitos da perda de energia em um sistema estelar extremamente compacto. Enquanto as duas anãs brancas continuam orbitando uma à outra em poucos minutos, a emissão de ondas gravitacionais pode alterar lentamente essa configuração.

O próximo passo será descobrir a distância do sistema e acompanhar sua evolução orbital. Essas informações poderão determinar se a dupla é apenas uma curiosidade astronômica ou uma das futuras fontes mais importantes de ondas gravitacionais para observatórios espaciais.

Leandro C. Sinis é biólogo formado pela UFRJ e divulgador científico. Com experiência em pesquisa acadêmica, é coautor de um estudo sobre neuroproteção publicado no Journal of Biological Chemistry (DOI: 10.1074/jbc.m117.807180). Sua missão no Fala Ciência é traduzir descobertas complexas em conhecimento acessível e seguro para todos. Ver perfil no LinkedIn | Ver Currículo Lattes