Suplemento usado para turbinar o cérebro pode encurtar a vida dos homens 

Tirosina elevada foi ligada a menor longevidade masculina. (Foto: Fala Ciência via Gemini)
Tirosina elevada foi ligada a menor longevidade masculina. (Foto: Fala Ciência via Gemini)

A busca por mais energia mental, concentração e desempenho cognitivo levou milhões de pessoas a consumirem suplementos voltados para a saúde cerebral. Entre os ingredientes mais populares está a tirosina, um aminoácido presente naturalmente em alimentos ricos em proteínas e frequentemente vendido como aliado do foco e da produtividade. No entanto, uma nova pesquisa trouxe uma descoberta que pode mudar a forma como esse nutriente é visto.

Um estudo publicado na revista científica Aging, liderado por Jie V. Zhao e publicado em 2025, encontrou uma associação consistente entre níveis elevados de tirosina no sangue e uma menor expectativa de vida em homens. O trabalho analisou dados de mais de 270 mil pessoas, tornando-se uma das maiores investigações já realizadas sobre o tema.

O aminoácido que ajuda o cérebro

A tirosina é um dos aminoácidos utilizados pelo organismo para diversas funções essenciais. Ela participa da produção de importantes neurotransmissores, incluindo:

  • Dopamina
  • Noradrenalina
  • Adrenalina

Essas substâncias estão envolvidas em processos como atenção, motivação, memória, humor e resposta ao estresse.

Por esse motivo, suplementos contendo tirosina ganharam popularidade entre estudantes, profissionais e pessoas que buscam melhorar o desempenho mental em situações de alta demanda cognitiva.

O que os cientistas descobriram

Para entender melhor a relação entre aminoácidos e longevidade, os pesquisadores utilizaram informações do UK Biobank, um dos maiores bancos de dados de saúde do mundo.

Além da análise observacional tradicional, a equipe empregou uma técnica genética chamada randomização mendeliana, considerada uma ferramenta poderosa para investigar possíveis relações de causa e efeito.

Inicialmente, tanto a fenilalanina quanto a tirosina pareciam estar associadas a um maior risco de mortalidade. Contudo, após ajustes estatísticos mais rigorosos, apenas a tirosina continuou apresentando uma relação consistente com a expectativa de vida.

Os resultados indicaram que homens com níveis mais elevados desse aminoácido poderiam apresentar uma redução média de quase um ano na expectativa de vida.

Curiosamente, o mesmo padrão não foi observado entre as mulheres.

Por que a tirosina pode estar ligada ao envelhecimento?

Os mecanismos exatos ainda não são totalmente compreendidos. Entretanto, os pesquisadores levantaram algumas hipóteses biológicas relevantes.

Uma das principais envolve a resistência à insulina, condição associada ao envelhecimento e ao aumento do risco de diversas doenças crônicas, como:

  • Diabetes tipo 2
  • Doenças cardiovasculares
  • Síndrome metabólica

Além disso, como a tirosina participa da produção de neurotransmissores relacionados ao estresse, alterações prolongadas nesses sistemas podem influenciar processos biológicos ligados à saúde e à longevidade.

Outro fator investigado envolve diferenças hormonais entre homens e mulheres, o que poderia ajudar a explicar por que o efeito foi identificado apenas no sexo masculino.

Isso significa que suplementos de tirosina são perigosos?

Não necessariamente.

É importante destacar que o estudo não avaliou diretamente o consumo de suplementos de tirosina. Os pesquisadores analisaram os níveis sanguíneos naturalmente presentes no organismo e sua relação com a longevidade.

Portanto, os resultados não permitem concluir que a suplementação cause redução da expectativa de vida. O que a pesquisa sugere é que níveis elevados de tirosina merecem atenção e investigação adicional.

Da mesma forma, não existe recomendação para interromper o consumo de alimentos ricos em proteínas, já que esses alimentos fornecem diversos nutrientes fundamentais para a saúde.

Um alerta que abre novas perguntas

O estudo publicado na revista Aging traz uma perspectiva intrigante sobre um nutriente tradicionalmente associado ao desempenho cerebral.

Embora mais pesquisas sejam necessárias para confirmar os resultados e esclarecer os mecanismos envolvidos, a descoberta mostra que substâncias consideradas benéficas podem ter efeitos complexos quando analisadas sob a ótica do envelhecimento.

À medida que a ciência avança, compreender como aminoácidos como a tirosina influenciam a saúde ao longo das décadas poderá ajudar a desenvolver estratégias mais eficazes para promover um envelhecimento saudável e uma vida mais longa.

Rafaela Lucena é farmacêutica (CRF-RJ:13912) graduada pela UNIG. Une sua formação em saúde à paixão pela divulgação científica para traduzir estudos clínicos e farmacológicos para o cotidiano. Como responsável técnica pelo Fala Ciência, dedica-se a combater a desinformação com rigor técnico e embasamento científico de qualidade. Ver perfil no LinkedIn