O segredo daquele comprimido mastigável que faz as pulgas “sumirem” do seu pet em horas

Pulgas morrem após ingerirem sangue do animal tratado. (Foto: Fala Ciência via Gemini)
Pulgas morrem após ingerirem sangue do animal tratado. (Foto: Fala Ciência via Gemini)

Você oferece um comprimido mastigável ao seu cachorro e, poucas horas depois, as pulgas começam a desaparecer. Nos dias seguintes, carrapatos que tentam se alimentar também morrem rapidamente. O mais impressionante é que essa proteção pode durar semanas ou até meses, dependendo da molécula utilizada.

À primeira vista, isso parece quase mágica. Afinal, como uma substância consegue ser tão eficiente contra parasitas e, ao mesmo tempo, apresentar segurança para cães e gatos? A resposta está em um conceito fascinante da farmacologia chamado seletividade molecular.

O alvo invisível que existe apenas nos parasitas

Os medicamentos da classe das isoxazolinas, como fluralaner, afoxolaner, sarolaner e lotilaner, atuam diretamente no sistema nervoso dos artrópodes, grupo que inclui pulgas, carrapatos e alguns ácaros.

Esses parasitas dependem de canais especiais presentes em suas células nervosas para controlar os impulsos elétricos. Entre eles estão os chamados canais de cloro regulados por GABA e glutamato.

Quando as isoxazolinas bloqueiam esses canais, ocorre uma intensa desorganização na comunicação nervosa do parasita. Como consequência:

  • O inseto perde o controle dos movimentos.
  • Ocorre hiperexcitação nervosa.
  • Surge paralisia progressiva.
  • O parasita morre em pouco tempo.

Esse mecanismo explica por que as pulgas começam a morrer rapidamente após se alimentarem do sangue do animal tratado.

Por que o pet não sofre o mesmo efeito?

Essa é a grande sacada da química dessas moléculas.

Embora cães, gatos e seres humanos também possuam receptores relacionados ao neurotransmissor GABA, a estrutura desses receptores é diferente daquela encontrada nos artrópodes.

As isoxazolinas apresentam uma afinidade muito maior pelos receptores dos parasitas do que pelos receptores dos mamíferos. Em outras palavras, elas foram desenvolvidas para reconhecer preferencialmente o “cadeado” biológico das pulgas e carrapatos.

É justamente essa diferença molecular que cria uma ampla margem de segurança quando o produto é utilizado conforme orientação veterinária.

O segredo da proteção prolongada

Outro fator que chama atenção é a longa duração do efeito.

Após a ingestão, a substância é absorvida e circula pela corrente sanguínea do animal. Como essas moléculas possuem características que favorecem sua permanência no organismo, elas continuam disponíveis por longos períodos.

Isso significa que qualquer pulga ou carrapato que tente se alimentar encontrará o medicamento presente no sangue e será exposto ao seu efeito neurotóxico seletivo.

Dependendo da isoxazolina utilizada, a proteção pode durar de várias semanas até aproximadamente três meses.

Novas evidências sobre o funcionamento das isoxazolinas 

Uma revisão científica publicada em abril de 2026 na revista International Journal for Parasitology: Drugs and Drug Resistance, liderada por Paulina Markowska-Buńka, analisou a farmacologia e a toxicologia das principais isoxazolinas veterinárias. Os autores destacaram que esses compostos exercem sua ação por meio do bloqueio dos canais de cloro regulados por GABA e glutamato em artrópodes, apresentando afinidade muito superior pelos receptores dos parasitas em comparação aos mamíferos.

Os pesquisadores também observaram que essa seletividade ajuda a explicar a elevada eficácia contra pulgas e carrapatos associada a um perfil de segurança amplamente favorável quando os produtos são utilizados corretamente.

Uma das maiores revoluções da medicina veterinária

Antes das isoxazolinas, o controle de pulgas e carrapatos dependia frequentemente de banhos, sprays e aplicações mais frequentes. Hoje, a tecnologia permite que um simples comprimido mastigável ofereça proteção duradoura e prática.

Por trás desse resultado existe um sofisticado trabalho de farmacologia molecular. Em vez de atacar indiscriminadamente qualquer célula nervosa, essas moléculas exploram diferenças biológicas específicas entre mamíferos e artrópodes.

O resultado é um exemplo elegante de como a ciência moderna consegue transformar o conhecimento da biologia em soluções que melhoram a saúde e o bem-estar dos animais de companhia.

Rafaela Lucena é farmacêutica (CRF-RJ:13912) graduada pela UNIG. Une sua formação em saúde à paixão pela divulgação científica para traduzir estudos clínicos e farmacológicos para o cotidiano. Como responsável técnica pelo Fala Ciência, dedica-se a combater a desinformação com rigor técnico e embasamento científico de qualidade. Ver perfil no LinkedIn