Durante décadas, o espaço ao redor da Terra ficou progressivamente mais barulhento. Satélites, radares, sistemas de comunicação e outras tecnologias produzem ondas de rádio que podem esconder sinais extremamente fracos vindos do cosmos. Agora, astrônomos estudam uma alternativa surpreendente: colocar um radiotelescópio no lado oculto da Lua, onde o próprio corpo lunar pode funcionar como uma barreira contra a interferência terrestre.
A ideia ganhou forma com o projeto Lunar Farside Transients and Technology Telescope, ou LFT3, concebido para observar o Universo em frequências que são difíceis de investigar a partir da Terra.
A Lua pode funcionar como um escudo natural
O lado oculto da Lua nunca fica diretamente voltado para a Terra. Essa característica cria uma região especialmente protegida das transmissões de rádio produzidas pelo nosso planeta.
Além disso, a ionosfera terrestre bloqueia parcialmente ondas de rádio de baixa frequência, dificultando determinadas observações. Por isso, um telescópio instalado na superfície lunar poderia acessar uma faixa do espectro praticamente impossível de explorar com a mesma qualidade a partir do solo terrestre.
O momento, porém, é importante. A expansão das atividades espaciais deve aumentar a presença de equipamentos em torno da Lua, elevando gradualmente a possibilidade de interferência de radiofrequência também no lado oculto.
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Entrar no Canal do WhatsAppUma antena lunar para procurar sinais extraordinários
A proposta foi detalhada por David R. DeBoer e colaboradores em um trabalho publicado no arXiv em 2026. O LFT3 seria projetado para trabalhar nas faixas HF, VHF e UHF, observando o céu durante aproximadamente 20 semanas. Entre seus principais objetivos estão:
- Procurar possíveis assinaturas tecnológicas, incluindo sinais semelhantes ao famoso sinal Wow!.
- Investigar auroras de exoplanetas, que podem produzir emissões de rádio e fornecer pistas sobre seus ambientes.
- Detectar rajadas rápidas de rádio, conhecidas como FRBs, além de outros fenômenos transitórios.
A missão teria apoio científico da iniciativa Breakthrough Listen, voltada à busca de possíveis sinais de tecnologia extraterrestre.
O silêncio lunar também tem seus problemas
Construir um equipamento no lado oculto da Lua não seria simples. Durante o ciclo lunar, a superfície pode enfrentar temperaturas próximas de 120 °C durante o dia e −130 °C durante a noite.
Outro obstáculo é a comunicação. Como o telescópio não teria contato direto com a Terra, seus dados precisariam passar por um satélite retransmissor em órbita lunar. A capacidade disponível de transmissão seria limitada, exigindo processamento diretamente no equipamento.
Assim, o LFT3 teria de analisar os sinais antes de enviá-los para a Terra, descartando informações pouco relevantes e preservando os eventos mais interessantes.
A proposta tem custo estimado em aproximadamente US$ 150 milhões, mas ainda não recebeu financiamento. Se sair do papel, o telescópio poderá transformar o lado oculto da Lua em um dos ambientes mais valiosos para a radioastronomia e a busca por sinais cósmicos extremamente fracos.
